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Quinta-feira, Maio 25, 2006
by WILSON T
Deriva XVIII
Homens que não falam nem se olham. Correm montanha acima e escondem-se em cavernas
e com medo dos obuses e napalm
sentam-se em noites frias à volta da fogueira solitária.
Entoam murmúrios selváticos de ignorância e até
quem sabe quem pode dizer
da simplicidade humana de quem vive junto dos primórdios e das necessidades básicas à luz ténue da evolução humana.
Mas os sobas que aprenderam e se fizeram eleger para os lugares de comando
ah esses sobas tantas vezes mais cegos e perdidos em refinadas confrontações ideológicas
esse são na verdade os grandes arquitectos da desgraça.
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Quarta-feira, Maio 24, 2006
by WILSON T
Deriva XVII
O tempo anda-me fugidio como uma água rara
que desfaz as dunas de um deserto de pensamentos amontoados por vento errante. Sem qualquer ordem que a mão
preguiçosa
nada tem organizado. Não me tenho sentado verdadeiramente
com uma chávena de café ou um copo de vinho tinto
as horas suficientes. Mas vou-me por aí desalinhado aos encontrões às coisas
a ver se as coisas me encontram.
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Terça-feira, Maio 23, 2006
by WILSON T
Deriva XVI
Noite adentro fui-me chegando a um beijo sorridente no nada bastante
e gaivotas descarrilantes despejavam já o sal com que haviam roubado a alma ao mar e dado a cor aos céus. Caiam brilhantes sobre a imensa escuridão das coisas todas e ironizavam musicalmente dos rostos fechados da gente séria daquele dia. Dos desolhados
pessoas que já não eram pessoas não conseguiam parar de viver
e assim andavam esquecidas dos espelhos que estão nos olhos dos outros. Andavam mesmo desolhados
por mais incrível que isso vos possa parecer.
E estes sais aerotransportados nas asas de aves salvadoras e marítimas
(as aves que acompanham barcos sempre tiveram outra consciência)
plantavam um doce ardor na pele. Uma canção subepidérmica inaudível como sabemos
no espaço infinito que existe entre a pele e o corpo.
(será lá também que fica a alma)
Sorrisos subtis que não têm explicação nem outro nome
um deserto inteiro chegado numa poeira fina aos olhos e à pele. E fui-me adentro
mais e mais o quanto pude. Para cegar todo eu nesse prateado nascer da noite.