Escrita Solta

25.4.06


Deriva XV

Tinha de escrever uma frase que retirasse o texto anterior daqui
porque ele é mesmo mau e estava a deixar-me doido. Quem terá escrito tal coisa. Há coisas do-arco-da-velha.
Deve haver algum sacana que entra no blog sem eu saber.
Eu não escrevo assim tão mal.


19.4.06


Deriva XIV

Sai do cinema um casal. Outro dirige-se
para o cinema. As mulheres
jovens raparigas em idade de casar
(qual é a idade para casar)
olham-se
sem nunca trocarem olhares. Medem-se
apreciam-se
avaliam-se.
E em perguntas silenciosamente balançadas
ao sabor da ganga das ancas
e do subtil sapateado feminino
marcando território ou um pouco mais
conforme o jeito
muito mais a que viu ilusões na tela
se questionam selvagens
(E se quisesse o teu homem)
em pensamentos nús.


14.4.06

9.4.06


Deriva X

Chove muito e por momentos choro. As águas a confundirem-se. O amor a confundir-se nelas.A beleza banhada na manhã.
E pensar que já não há amor que chegue para todos. Que o amor pode esgotar-se e todos teremos sede.
E que as pessoas já não cuidam dos seus amores, olham-nos com um descaso que o amor não admite.
E os trocam como se fossem coisa. E que assim o amor pode desaparecer da face da Terra. De fome, de sede,amor e pessoas. Banidos.
Uma tragédia ecológica.

Silvia Chueire

(correcção ao texto anterior Deriva X)


7.4.06


Deriva XIII

A morte é fétida. Nascemos para viver. Ainda neste momento em que observo um pássaro preto e branco
penso em todos os pássaros que existirão. Não
não quero conhecer todos e saber o seu nome. Mas devia ser eu a decidir quando me chegasse. Todos deviamos poder decidir
não como uma eutanásia
como uma chama que lentamente sossobra ou o próprio vento que vai por aí.
Todos
os amigos
assistiriam a esse esfumar-se. E como se nos inspirassem
ficariam com uma parte de nós absorvida no sangue. Uma droga boa. E ficariam inebriados de silêncios.
Todos
aqueles com quem temos ligações
veriam a nossa transformação num perfume ou na própria flor
ou ainda numa coisa mais firme. Numa árvore. Sim
eu não me importava de me ficar por aí com raízes. E um dia atirava-me ao chão no Outono
no meu Outono.
A morte é uma coisa fétida.
Pessoas cidades livros
e mais.


6.4.06


Deriva XII

Ponho-me a pensar. No mais escuro de mim procuro o pensamento molecular
abstrair-me do todo que me rodeia
silenciar os vícios da existência os sentidos.
Pergunto-me se será possível que a humanidade transporte hereditariamente mais do que as suas características físicas.
Pergunto-me se o Homo sapiens sapiens traz nas suas moléculas nos seus átomos outra informação
aquela que se adquire pela experiência tal como se defende que há evolução.
Pergunto-me se traremos connosco as vidas de nossos antepassados. Seus temores
talvez outras emoções. Ódios velhos e angústias. Sorrisos e gargalhadas
talvez a felicidade de um longo caminho. A beleza de múltiplas e agradáveis imagens
mas aqui parece-me que ainda não saímos das árvores.


4.4.06


via e-mail:

voa

Há um retrato de sensualidade na tua voz
Como um sussurro que nos perturba a alma
Uma espécie de canto de pássaro que me eleva...
Tu cantas as palavras de uma forma singela
Poética, feito ave de rapina
Selvagem que voa sobre destino incerto.
Cheira a liberdade
A corrupio dos corpos que se entrelaçam desmesuradamente...
E ninguém dá por nada
Silêncio paira num espaço obliquo que vivemos
Ninguém nos ouve nesta cidade plana
Com noites inquietas
Sobrevoando sobre tremores da madrugada.
Paz que nos flúi no sangue
Sobre perguntas sem respostas
Todas elas estão no fundo dos meus olhos
No encaixe dos meus segredos.
Ruelas perdidas sem nome
Veios de essências e incensos
Velas acesas que me perduram na alma...
Sem pontuação
Sem mestria
Na humildade das letras
Componho a melodia que te sai da alma
Em efeitos de canto
De pássaro que vai e não chega
Que se transforma e se funde numa ave com o meu nome.

Joana Sousa Freitas
15/03/2006. Lisboa


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