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28.3.06
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Terça-feira, Março 28, 2006
by WILSON T
Deriva XI
Estou confortavelmente sentado no meu carro. Está um sol principiante de Primavera
mas muito bom. Leio. Quase me apago com um sono manso que me chega embalado na música da rádio. Diana Krall.
Vim trazer um amigo ao hospital para um curativo. Pelas brechas dos olhos vão entrando pessoas para as urgências
um outro mundo. A maior parte da cidade está a leste deste subúrbio da dor. Do sofrimento.
Até um dia. Até um dia.
À minha frente a condutora de uma ambulância está também confortavelmente sentada
parece-me que ouvindo Diana Krall e fazendo malha ou tricotando.
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Terça-feira, Março 28, 2006
by WILSON T
Deriva X
Chove muito e por momentos choro. As águas a confundirem-se. O amor a confundir-se nelas.A beleza banhada na manhã. E pensar que já não há amor que chegue para todos. Que o amor pode esgotar-se amanhã.E todos teremos sede. E que as pessoas já não cuidam dos seus amores. Já os trocam como se fossem automóveis. E que a amor pode desaparecer da face da Terra. Uma tragédia ecológica.
Silvia Chueire
23.3.06
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Quinta-feira, Março 23, 2006
by WILSON T
Deriva IX
(Oração)
Chove muito. A relva está muito verde. A relva está muito molhada. As gotas de água penduradas na relva nas flores nos arbustos parecem pedras preciosas. Diamantes efémeros. E pensar que em tantos lugares não há água para matar a sede. E pensar que noutros ela mata de enxurrada. E pensar que cada vez há menos água potável. E pensar que nunca dominaremos a sua vontade. E pensar que não temos respeito nenhum por ela.
Estou de joelhos num lugar quente seco e aconchegado e bebo um copo de água. Fecho os olhos.
22.3.06
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Quarta-feira, Março 22, 2006
by WILSON T
Deriva VIII
A Terra acabei de beijar prostrado. E grãos de castanho tomaram os meus lábios de assalto. A cor molhada do cheiro a sempre
aspirou ser
a artística pincelada de um louco. Mais do que um grito
talvez o próprio mito
do humano amor
que na loucura não quer deixar morrer.
21.3.06
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Terça-feira, Março 21, 2006
by WILSON T
pesam-me as pápebras
de um sono antigo
um sonho sedutor
e sempre
quero descansar os olhos
Silvia Chueire
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Terça-feira, Março 21, 2006
by WILSON T
Recebido por mail:
Sem Título
Não me sentes.
Procuras por todos e eu não estarei.
Só quando desistir
E, cansado, o teu coração
Vier comer em mim
O fogo da Fénix,
Olharás para dentro e dirás:
Perdi-te à tua procura.
Amor, agora fica.
Gonçalo Miragaia
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Terça-feira, Março 21, 2006
by WILSON T
Recebido por mail:
Sabor a Cinza
Fumaste-te e repugnaste-te.
Estás consumido, dorido, ninguém.
Rasteja outra vez, pois sem ti,
Não serás tu outro alguém?
Dói-te a alma, as mãos, a face envergonhada.
Mostra-te apenas a quem o merecer...
Encontrar-te-ás nessoutro?
Jamais, não sabes nada.
Quem?
Gonçalo Miragaia
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Terça-feira, Março 21, 2006
by WILSON T
Recebido por mail:
O teu olhar adivinhando-me o corpo, buscando-me a alma.
Adivinho-te, busco-te.
As tuas palavras verbalizando-nos.
És. Sou. Nós.
As tuas mãos em mim. As nossas mãos confundidas, buscando o improvável intocado.
Percorres-me a pele, o sangue fervendo. Percorro-te a pele, o sangue transbordando de nós.
O mundo esquecido. Do mundo esquecidos.
Criamos o outro, íntimo, único, uno, nosso.
Descobrindo-me para ti, descobri-me, mulher.
Corpo, meu feito teu.
Alma, minha feita mundo.
Corpórea, a alma, feita dádiva à terra.
Elisabete Anastácio
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Terça-feira, Março 21, 2006
by WILSON T
Recebido por mail:
No silêncio
Aos nossos pés as ondas quebravam na praia
E a noite foi-se abatendo sobre nós
Tomámos conta do tempo, fizemo-lo nosso
De mãos abertas tacteámos o mundo
Na areia desenhámos labirintos, espirais de vida
Das cores e das flores que nos vestiam criámos jardins suspensos
Das ervas secas tecemos tapetes voadores
Viajámos na distância e no tempo sem fim
As palavras por dizer ganharam o sentido impossível
Os pés descalços percorreram-no
No silêncio Nós
Elisabete Anastácio
18.3.06
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Sábado, Março 18, 2006
by WILSON T
Deriva VII
As minhas pálpebras pesam
17.3.06
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Sexta-feira, Março 17, 2006
by WILSON T
Deriva VI
Estou encostado a um vidro duma janela enorme duma casa enorme
que não é minha obviamente. Uma janela assim só existe em casa projectada por arquitecto
com muitos engenheiros à volta e paisagistas a pensarem a paisagem ou o que se vai ver dela depois da obra concluida. E eu não teria dinheiro para pagar esta sumptuosidade.
Para dizer a verdade
ainda não tive dinheiro para comprar janela nenhuma. Vivo em quarto alugado e as janelas do meu carro
são de um carro que o meu pai me ofereceu. Além disso
são pequeninas e a paisagem está sempre mudando.
Aqui tenho uma relva verde do lado de lá do vidro que vem com este tipo de janelas e linhas rectas da nova arquitectura
que
na verdade
já é muito antiga. Basta olharmos para as pirâmides do Egipto.
Chove.
O estore desta janela tem pelo menos quatro metros de comprimento.
Chove. E pelas lâminas do estore
autênticos flaps de avião
escorrem grossas gotas de água no reencontro do destino.
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Sexta-feira, Março 17, 2006
by WILSON T
Deriva V
Fico para aqui sozinho a pensar nas coisas
naquilo que gostava de fazer ou de ter feito
pois os anos somam-se.
Olho e imagino-o na parede branca e é um descanso poder ficar assim a olhar a parede branca
(talvez fosse bom passear à beira-mar)
como se o tempo fosse aquela linha imaginária arco-íris circular.
Bem
já passou muito tempo e pensar cansa
não vou fazer nada a não ser continuar aqui a olhar aquela parede branca.
Até ler cansa muito
(talvez pudesse ir até um café
fumar um cigarrito)
e estou demasiado ansioso para também ficar cansado.
Fumo mesmo aqui e já não vou ao café.
14.3.06
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Terça-feira, Março 14, 2006
by WILSON T
Deriva IV
Comprei um caderno às riscas. Desses para escrevinhar ou desenhar. Eu uso para tudo
notas de viagem e devaneios e diário de coisas esquisitas e desenhos
adoro desenhos.
Mas não é daqueles da moda
porque eu detesto modinhas
é um caderno às riscas a tenderem para o castanho dourado que o fundo é mesmo castanho.
Riscas ao alto
que não gosto de riscas na horizontal porque me confundem.
Não é nenhum Moleskine ou o diabo a sete
já disse. Não é desses da moda. É um dez por quinze. E para o tornar diferente desenhei logo na primeira página um hipotético retrato de Fernando Pessoa. E não me digam que é mania. E se for.
10.3.06
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Sexta-feira, Março 10, 2006
by WILSON T
Quando olho sei que fotografo,
descubro a permanência da luz,
das nuances de luz,
para sempre.
quando olho ao modo de fotografar
incidindo a lâmina da imagem em mim,
a alma da circunstância, a imagem,
sei que estou para sempre cativa
e um vento frio me percorre o corpo.
Silvia Chueire
depois de Deriva II
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Sexta-feira, Março 10, 2006
by WILSON T
Deriva III
É trabalho honesto. Ganho mal. Escrevo coisas para as pessoas. E admito que às vezes as frases não trazem nada dentro senão fome. Mas é sentida.
8.3.06
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Quarta-feira, Março 08, 2006
by WILSON T
Deriva II
Uma fotografia é uma faca profunda e ácida na carne dos vivos. Se olharem bem
verão a alma dos antigos saindo pelos olhos
clamando uma existência. É neles que recolho a luz que me enlouquece
um vento frio que me atirará ao chão.
Quando olho estas fotografias acredito que a máquina lhes roubou a alma.
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Quarta-feira, Março 08, 2006
by WILSON T
Deriva I
Sentei-me a uma velha secretária. Uma escrivaninha à antiga
daquelas que os meus sonhos gostavam de ter. Livros atrás das costas. Muitos livros. Uma vida de livros.
Sentei-me nervoso a olhar para eles. Voltado de costas para tudo para a secretária. Não conseguia enfrentá-la
nem a folha que jaz morta e branca. Viro-me
para as mãos e reflicto um momento sobre a pele que observo e a carne e os ossos debaixo dela.
-- Serás pó. Mas onde se entranhará a essência dos sonhos e das ideias.
E o que sinto
-- Poderá ficar na memória dos elementos. Do oxigénio que alguém venha a respirar ou do carbono tornado escrita daqui a muitos séculos.
poderá dexistir ou não. Talvez um mero mas fascinante brilho
do amor à vida
que a vida circunscreverá
a mais um ponto de luz no infinito.
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