Escrita Solta

30.11.05


Já tenho Internet
Desfiz a cegueira
Liguei-me, citei-te,
Escolhi uma imagem
Olhei para o mundo,
Tive a sensação
De tudo ser meu;

Já tenho Internet
Já posso espreitar,
Ligar-me, citar-te,
Escolher as palavras
Dizê-las à toa
Escrevê-las, prendê-las,
Soltá-las da mão
Fazê-las voar.

Palavras em Linha


Ser poeta
É da dor criar algo belo
É pensar no amor
E reviver ao escrevê-lo
Ser poeta
É mergulhar nas ondas
Naufragar a tempestade
Esquecer as afrontas
Ser poeta
É escavar no sentimento
Soltar a resina
Estancar o momento
Ser poeta
É sê-lo não dizê-lo
É cantar para fora
O que nos roi cá dentro
Abrir as entranhas
E espalhá-las ao vento.

someone


21.11.05


Já tenho internet.


alcançarei as nuvens?

decerto não.
pesa-me o corpo,
pesa-me a alma.
as palavras fugiram de mim
e eu fiquei com os olhos
fechados sobre a página.

allegra


18.11.05


Sufoco-me de instantes; esperança feita de dias acabados.
Os amanhãs ficaram em linha e eu suspensa lançando o olhar em projecto.
Bicos de pés saltitam sobre a garganta forrada a verde-musgo.
Alcançarei as nuvens?

Palavras em Linha


16.11.05


Sentada na cadeira à espera que chegue
Os olhos começam a arder, caiem antes dela

E num repente bate-me nas costas
sacode-me
esmurra

Ergo-me aflita buscando consolo na casa vazia
o coração aperta, aperta antes dela

É a noite, chegou

mrf


Acendíamos as velas e ficávamos ali a ouvir os espíritos que passeavam tranquilos no corredor. Às vezes abríamos as janelas e saíamos por elas, olhos nos céus. outras vezes deixávamos a noite entrar. mas se estava muito cerrada não se curvava. da sua profundidade e negritude lançava apenas um pouco de neblina. o suficiente para estremecermos.
Foi assim a última noite.

Na véspera da luz. A instalação estava pronta. Vi-os entrar com os lustres. Vi-os suspenderem-nos. a todos. eles e nós. Eram diferentes dos que já ornamentavam os passeios públicos.

Esse dia que parecia nunca mais acabar, dia que se quis logo noite. para a noite deixar de o ser.

As luzes eléctricas apagaram estrelas e galáxias. mataram espíritos. hoje os dias à noite revelam corredores despovoados. velhos cotos de vela abandonados.

céus sem olhos. que aterrorizam os homens
Lilly Rose


4.11.05


A noite entrou rapidamente pela sala dentro cobrindo tudo
(Ainda pensei que fosse mais um aglomerado de nuvens em conspiração
contra as minhas horas actuais o presente o agora.
mas nada disso. Ignoram-me e já partiram há muito. Ou não
mas nada disso interessa. Nem as vejo nem a noite se importa. O céu está profundo e negro como se víssemos para dentro de um poço e conseguíssemos contemplar na sua frieza invernal
com as mãos assentes em verde húmido e macio musgo
galáxias distantes
planetas e estrelas dentro de nós.


A felicidade a sorte de ter amigos e amigas que escrevem bem
e escrevem para o Escrita Solta
é uma coisa muito boa.
Obrigado. Que se estende que se reforça
aos leitores. Companheiros
tantas vezes apenas
de silêncio.


mergulhar as mãos
na eternidade de cada dia
o corpo a caminhar feroz
e manso contra o tempo.

Silvia Chueire


3.11.05


Decidi
olhar o céu estes dias cinzento ora
de um azul cristalino
de chuva envergonhada e
sempre com um intuito um prazer uma necessidade
reduzir tudo a um pedaço de eternidade.


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