Escrita Solta

29.9.05


Quarto desarrumado. Meias espalhadas pelo chão. Usadas.
Alguma roupa
e uma infinidade de papéis e fotografias antigas e livros.
Tudo desarrumado e coerente com o dia.
-- Está com muita sorte em ter um emprego
que isto não está nada fácil e ter dinheirinho para pagar as contas é muito bom -- disse com o ar de quem o pode dizer. E repetiu de outra forma
-- Sorria vá lá que há quem esteja pior -- e continuou sorrindo como quem pode.
Vida desarrumada lançada para as artérias do corpo como um veneno
sabe-se lá por que razão. Por que razão há-de uma pessoa sentir-se perdida em tanta bondade. Em tanta consciência. Afinal o mundo
E coincidimos neste pensamento
(afinal o mundo tem gente mais infeliz.)
de grande clareza humana e social. Uma boa merda deve dizer-se.
O veneno que o coração bombeia para o corpo
E coincidimos neste pensamento
(O corpo é o lugar onde está a alma. A casa dos horrores.)
corrói o espírito e nenhum espírito suplanta a sua desgraça privada olhando o chão
a lama onde outros estão ainda mais enraizados. Atolados
nessa inocência.
-- Você é um sortudo vá lá -- disse-o com sapiência. Coisa de velho que sabe da vida. Coisa de velho antigo nas manhas da estrada. Coisa de doutor.
-- Senhor Professor -- correspondeu com parcimónia e reverência e um ar algo interrogativo-- quer que lhe dê um beijo no cú.
E esta última pergunta que se pôs nele a galopar
virá a ser o mote de uma manhã futura. Quem sabe.
Meias lavadas. Uma fotografia da Chicholina espalhada pelo chão e alguns livros cheirando a chulé.


17.9.05




de tantos que eram
os meus cabelos já andavam perdidos
eles e os adereços femininos
que ostentava ou deixava escondidos

de cabeça rapada e cuecas de homem
removi os totens que me assombravam
e por tautologia
lancei armas, penetrei damas
sempre esquivo
sem ajoelhar aos pés da cama

mas do que vos conto, lembrai primeiro
sem outro remédio nunca deixei
de abrir as pernas a terceiros


MRF


16.9.05


Diziam-lhe tantas vezes
-- És bonita
e reforçavam
como uma deusa deitada de pernas abertas.
Mas não se deu que uma pessoa apenas se ajoelhasse e lhe beijasse as mãos
levando-as depois a ler nas rugas da pele a intemporalidade de uma presença mais longa que um orgasmo.
Portanto
fez o que fez e não olhou para trás.
Rapou o cabelo que emoldurava
em dourado
um suposto retrato de diva. E passou a usar cuecas de homem.


Eu rasguei todas por me sufocarem de ironias e desejos falsos. Porque não libertar um espaço cheio de papeis de odor cruel? Porque não me libertar de ti? Hoje és só isso, um monte de papel amassado que um dia foi fragância de ilusão. Rasguei todas! Vou queimar cada pedaço, talvez inale o fumo, os meus pulmões vão gostar de te destruir.

Celisol


há nas cartas uma liberdade
ou uma tentação
líquida.

supoem que as palavras são menos
contundentes
do que as armas brancas,
ou os gestos amorosos.
enganam-se.


Silvia Chueire

depois de
Conservo a tua carta fechada. Bastou-me lê-la uma única vez. Como nos arrogamos o direito de animar os outros com excessivas doçuras
ou deitá-los abaixo com a injustiça afiada. Espetada certeiramente no coração ou na jugular. Como. É a pergunta que faço.


8.9.05


Conservo a tua carta fechada. Bastou-me lê-la uma única vez. Como nos arrogamos o direito de animar os outros com excessivas doçuras
ou deitá-los abaixo com a injustiça afiada. Espetada certeiramente no coração ou na jugular. Como. É a pergunta que faço.


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