Escrita Solta

31.8.05


Decidiu arrancar a pele do corpo por estar farto da sua aparência mundana. Farto de uma coberta de sarna cheia de crosta
que o impedia de sentir a aragem suave e quase imperceptível. Mesmo a respiração dos outros.


30.8.05


O escritor estava farto de opiniões. Da dele próprio sobre o que escrevia. Cansado. De modo que
subtilmente
como aliás era seu apanágio no papel que decidia desbravar com uma violência íntima
fechou a sua pessoa física num quarto
(Um escritor é impossível de prender.)
e riu tranquilamente cioso da beleza do gesto e da palavra que naquele momento eram apenas seus.
Depois como as coisas inesperadas disse em voz alta sabendo que ninguém o ouvia
-- Sinto manhãs eternas de nevoeiro em versos impossíveis. A noite virá
não teve medo.
e será para sempre
o que é bom. E entre a manhã e a noite o azul terreno. Contemplarei.
Pegou no seu último livro ainda as páginas aguardando
e cortou os pulsos de onde brotou a sua vida. Um poema vermelho
completamente desinteressado.


De manhã a passarada irrita-me com solenidade
uma espécie de opereta citadina à janela do quarto
e eu sei que não é socialmente bonito dizer uma coisa destas. Que a maior parte já estará a pensar
(Que indivíduo mais mal-formado. Psicopata. Não não. É mesmo um inculto miserável que não reconhece o valor da natureza e
a própria beleza
os passarinhos a cantarolar e ele capaz disto. Desta insensibilidade quase insana. Se calhar até era capaz de lhes fazer mal.)
e não é nada disso. Julgo eu.
(Só lhes atirei uma bacia de água.)
E juíz em causa própria tem o que se lhe diga. É claro. Aceito. Mas não acho que seja nada disso
sou até muito sensível. Isso sim. Gosto muito da passarada e dessa bicharada toda e não me importo que façam ninho junto à minha janela. Mas
e acho que esta é uma pergunta legítima à natureza bela e magnânime
porque razão não afinam eles a opereta diária a partir apenas das dez horas da manhã. Em vez disso começam naquele preciso momento em que me abandonas
em que se faz dia. E toda aquela luz teatral intensa na ribalta do palco que é a vida
(Uma vida quase imposta. Com guião que não permite muita criatividade. Vontade própria.)
me recorda as cores verdadeiras e os «universos escusos» como dizes. «Calam-se os violinos»
e os sons agudos dos pardais
(Penso que são pardais.)
gritam-me enganos enganos enganos
como se a noite passada não tivessemos firmado as nossas mãos numa aliança e ela não possa subsistir. Estou farto
há coisas de mais a fazer parte melódica dessa engrenagem que nos quer todos iguais
todos a acreditar que não podemos nadar para a margem e observar a corrente à distância. Podemos.
Eu apenas preciso de ter algum sossego nas primeiras horas do dia da luz
sem sons agudos ou graves. Nada. Silêncio. O silêncio que me permite encontrar-me comigo mesmo
contigo
com a noite. Com a certeza de que te vou encontrar logo. E a passarada está convidada.

~

Escrito depois de

aguda

é novamente dia,
novamente não há canção,
só enganos.
novamente as mãos nadam universos escusos,
calam-se os violinos.

tua falta é a nota aguda na manhã.

Sílvia Chueire


23.8.05


As palavras
aquelas escritas
andam a roer-me em silêncio.
Aguardam a chuvada que possa levar monte acima
as cinzas. Desaparecendo
no azul.


"Fechas os olhos e confias em mim__dou-te as coordenadas. O caminho é largo, tem poucas subidas, logo, vais te cansar pouco, as descidas são só para provocar um leve sorriso."
Esta era a voz do placebo numa farmacêutica de renome quando puseram vários pacientes a passear nesta "planície" e simultaneamente preparavam a substituição da tintura de iodo pelo grande lançamento do ano chamado Betadine.

Louise.


1.8.05




Degraus talvez,
As subidas e as descidas de vidas.
Desencontros.

© Maria do Céu Costa

(A Maria do Céu Costa deixou-nos este seu poema na caixa de comentários. Obrigado pela partilha.)


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