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30.6.05
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Quinta-feira, Junho 30, 2005
by WILSON T
Iam a caminho de casa já umas onze da noite. Noite fria para Verão e um pouco húmida de orvalhos ou coisa que o valha. Carregadas das compras. Uma ida ao centro comercial repentina. Um jantar noite dentro. Um dia que se pretende que acabe tarde ou nunca aabe. É difícil adivinhar o texto das suas vidas. Daquele momento.
(Duas pizzas em duas caixas de uma marca conhecida em duas mãos apressadas por chegar a casa. O jantar tardio parece-me óbvio e vinho também. Uma delas vai extenuada no seu passo cansado mas rápido e nas duas pesadas sacas que tilintam o som de vidro. Duas cheias e pesadas sacas de plástico desse lixo que não questionamos. Talvez de coisas essenciais como latas de conservas e vegetais para uma salada. Tabaco. Azeitonas. Batatas fritas ou aperitivos de queijo. Talvez nada disso. Pasta dos dentes ou sabonetes. Champô com amaciador. Preservativos por entre pensos higiénicos ou tampões. A revista que fala daquilo que é importante. Da programação de televisão. Do horóscopo. Culinária "pela boca morre o peixe".)
Apressadas. E felizes. Depois das compras as pessoas sentem-se sempre mais pessoas. Mais gente
que ter é ser
-- Eles dizem que aparecem lá para as onze e meia. Sabes como é
(Agora desvanece-se em compasso mais lento
alguma coisa.
alguma dúvida.)
o João tem de deixá-la ir para a cama. Adormecer os filhos.
-- Espero que não vá de dar-se algum imprevisto. Nunca se sabe e com as mulheres
(Com as mulheres. Com os homens. Não há núvens no céu. Está uma noite transparente e a lua
ah a lua
a lua está com aquela luz suficiente para que tudo à volta pareça ser.)
sabes que elas são desconfiadas e aí
aí podem ser matreiras. Um dia destes ainda vais ter chatices.
-- Eu estou farta desta merda
mas que posso fazer
ele já esteve para pedir o divórcio
se não fosse muito caro. Sabes que aquilo é preciso gastar muito dinheiro.
-- Claro. Tenho medo é que as pizzas arrefeçam. Espero que não se demorem muito
estou estoirada e depois já não consigo fazer nada. Dá-me o sono.
A cadência aumenta. Olho para o chão
e na humidade negra do asfalto quase um espelho
aquela luz suficiente. Aquela luz quase neutra e à volta as coisas desvanecendo sem importância alguma. Sem a importância que tiveram durante o dia.
Alternamos caminhos e eu deixei de pensar nas sacas com seguramente garrafas de vinho. Seguramente duas ou mais mas
pelo menos pelo ritmo do vidro coincidente com a dança das suas nádegas
duas.
Aquela luz suficiente demorou os meus passos distraídos na beleza obrigatória da penumbra. Na visão dos vultos e das suas diminutas sombras
almas penadas. Gemidos distantes que no entanto punham em expectativa a próxima esquina.
25.6.05
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Sábado, Junho 25, 2005
by WILSON T
Posso beijar-te docemente III
Pelas curvas do teu corpo correm gotas de suor quando o amor se entranha nos nossos corpos, somos incansáveis quando o desejo invade as nossas veias, suspiramos de cansaço mas o prazer relaxa-nos. Somos diferentes dos outros, mas só nós sabemos porquê.
Celisol
(obrigado. saberemos ser diferentes.)
24.6.05
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Sexta-feira, Junho 24, 2005
by WILSON T
Posso beijar-te docemente II
--Não, não o faças. Falta-nos DESEJO. ou falta-te a ti. És apenas luxúria.
e eu, eu quero-te tanto. mas ando triste. O meu DESEJO deixa-me triste. assim.
DESEJO-TE sem vontade. avulso. beijas-me, tomo-te. avulso, docemente.
Não o faças.
Divas & Contrabaixos
(excelente o texto. também o conteúdo. obrigado.)
23.6.05
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Quinta-feira, Junho 23, 2005
by WILSON T
Olhava em todas as direcções procurando-se.
(Pensei em oferecer-lhe tempo. Alguns segundos ou talvez mesmo uma tarde.)
Continuava insinuando um vazio qualquer como se fosse despenhar-se num adeus imcompreensível. Afinal mal nos tínhamos conhecido.
(Pensei mesmo em dizer-lhe
Sob aquele rosto irrequieto suspendia-se um belo peito. Duas formosas mamas de pele morena e algo suada. Estávamos no Verão.
-- Posso beijar-te docemente.
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Quinta-feira, Junho 23, 2005
by WILSON T
Fechei os olhos e saltei sobre a ravina para a espuma dourada daquela noite chegando. Já tinha ouvido falar de pessoas que queriam ser um pássaro mas sempre considerei tal desiderato uma coisa banal. Bastava-me olhá-los como se me pertencesse o seu voo. Assim como um prazer sublime algo pretensioso e intectualóide de quem tem a mania dos livros e dos livros como se estes estivessem fora da vida.
Agora atirava-me daquela ravina num contexto algo especial. Fartara-me do chão sob o céu azul e queria mais. Como apagar-me num relâmpago que desse a alguém uns segundos de sonho ou medo. Ser eu próprio algo com a natureza que tanto admirara. Uma espécie de tempo transitado. Um voo de ave branca sobre o fim de tarde. Sobre o mar verde e sereno.
(para a Sílvia Chueire. depois de Só sei.)
só sei
só sei que olho o céu e os pássaros voam
sobre o mar
e o mar é verde e sereno
como se o mundo tivesse
muitas janelas
pelas quais se espreitasse
o céu azul
só sei que amo com a intensidade
deste azul impetuoso das manhãs
e que espero como o mar
porque me é dado crer
que há tempo
silvia chueire
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Quinta-feira, Junho 23, 2005
by WILSON T
Procurei-a.
Onde se terá resguardado esta mulher da chuva imaginária. Os seus pés na areia estavam circulares e a rebentação das ondas desviava o olhar para longe. Como aquela página que se lê e lê e volta a ler sem conseguir ler nada. Sabemo-nos no lugar errado para a procura. Algo estranho domina o nosso corpo e diz-se psicossomático. Ou talvez exista uma alma algo perdida deambulando a noite extrema a fronteira. E essa vagabunda é apenas tudo. Um assomo de vontade férrea atómica tão invisível quanto verdadeira e poderosa. A palavra feita um gesto de impossibilidade daquilo que nos é consciente. Que porcaria devia estar eu a fazer agora. E nada posso. Mas ouço o mar sempre o mar como se estivesse encostado com o ouvido a um búzio. Afinal a praia inventei-a e não sei de nada nem ninguém.
Onde foi aquela mulher amante de fim de tarde e de varandas. De livros e sexo.
Fuma-se um cigarro sempre um cigarro quando não se sabe o que escrever e julgamos poder escrever. Mas ouço o mar sempre o mar e sozinho em círculos consumo-me afogado nesta chuva imaginária. Mais uma humidade tensa e espessa que se abate cinzenta e redutora sobre a tarde. Mas o mar sempre o mar. Um mar profundo e ao longe o gemido de baleias como se me escutassem.
Onde estará a palavra sentido. O encontro dos barcos.
(dedicado à Louise)
20.6.05
14.6.05
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Terça-feira, Junho 14, 2005
by WILSON T
lambe-me a tua memória
como se fossem ondas.
a ordem das palavras
nas frases que murmuravas,
lambem-me também estas.
ainda que tivessem todas
a mesma finalidade,
possuíres-me.
lambe-me a pele lentamente
a vazão oceânica
desta posse,
desta entrega.
Silvia Chueire
depois de
E ela disse-lhe
-- Podes lamber-me. Tomei banho.
(No ar paira uma ausência de tudo.)
com uma voz a preencher o intervalo dos seus corpos.
-- Escrevo-te na pele o que na alma me deixam poemas
E disse-o sem qualquer intelectualidade.
que seriam inúteis não fosse para te possuir.
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Terça-feira, Junho 14, 2005
by WILSON T
Morreu Eugénio de Andrade.
Estamos tristes.
*
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
*
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
*
Adeus
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
*
(Eugénio na Rede: 1, 2, 3, 4)
4.6.05
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Sábado, Junho 04, 2005
by WILSON T
O curso do tempo segue impreterivelmente a sua sina!
Ventos fustigam,
Dilúvios arrebatam!
E tu,onde estás???
Estás onde não há Espaço nem Tempo!
Holanda
3.6.05
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Sexta-feira, Junho 03, 2005
by WILSON T
meu copo de vinho transbordou
e as chamas deixaram uma ferida
bem no centro do meu corpo...
preciso de mar, preciso de sol
para poder ouvir a música de novo.
ângela
sobre
Um copo de vinho a cada um e as chamas queimando os últimos dias de Inverno na lareira. Vista para o mar e para o rebentamento das ondas. Um som repetido. Docemente repetido.
-- Que achas de nos enrolarmos lendo um livro. Ficamos quentinhos no sofá.
(O amor é feito de diminutivos. Coisas que não nos podemos ouvir dizer quando estamos com gente estranha. Mas apenas no calor quentinho dos corpos revestidos de uma esperança. De uma alma. Estranho. Talvez uma ideia parva de que há eternidade.)
-- Música.
-- Diz.
-- Disse música. Nada sem música. Põe qualquer coisa suave. Que suspenda no ar os ponteiros do relógio.
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Sexta-feira, Junho 03, 2005
by WILSON T
O pó parou o relógio, o pó é do tempo, o relógio mede o tempo, o tempo parou o tempo. O vento sacudiu o pó, o vento fez andar o tempo e tu chegas-te mais cedo.
Celisol
sobre
Um copo de vinho a cada um e as chamas queimando os últimos dias de Inverno na lareira. Vista para o mar e para o rebentamento das ondas. Um som repetido. Docemente repetido.
-- Que achas de nos enrolarmos lendo um livro. Ficamos quentinhos no sofá.
(O amor é feito de diminutivos. Coisas que não nos podemos ouvir dizer quando estamos com gente estranha. Mas apenas no calor quentinho dos corpos revestidos de uma esperança. De uma alma. Estranho. Talvez uma ideia parva de que há eternidade.)
-- Música.
-- Diz.
-- Disse música. Nada sem música. Põe qualquer coisa suave. Que suspenda no ar os ponteiros do relógio.
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Sexta-feira, Junho 03, 2005
by WILSON T
corpo sedento
de sol e de sal
à espera do vento
em dias de cristal
ângela
sobre
E ela disse-lhe
-- Podes lamber-me. Tomei banho.
(No ar paira uma ausência de tudo.)
com uma voz a preencher o intervalo dos seus corpos.
-- Escrevo-te na pele o que na alma me deixam poemas
E disse-o sem qualquer intelectualidade.
que seriam inúteis não fosse para te possuir.
(obrigado ângela)
1.6.05
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Quarta-feira, Junho 01, 2005
by WILSON T
Um copo de vinho a cada um e as chamas queimando os últimos dias de Inverno na lareira. Vista para o mar e para o rebentamento das ondas. Um som repetido. Docemente repetido.
-- Que achas de nos enrolarmos lendo um livro. Ficamos quentinhos no sofá.
(O amor é feito de diminutivos. Coisas que não nos podemos ouvir dizer quando estamos com gente estranha. Mas apenas no calor quentinho dos corpos revestidos de uma esperança. De uma alma. Estranho. Talvez uma ideia parva de que há eternidade.)
-- Música.
-- Diz.
-- Disse música. Nada sem música. Põe qualquer coisa suave. Que suspenda no ar os ponteiros do relógio.
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Quarta-feira, Junho 01, 2005
by WILSON T
Hoje queria apenas recomendar o livro "As velas ardem até ao fim" de Sandor Marai, escritor Húngaro que com este livro me fez reflectir profundamente sobre a amizade. Um livro que conseguiu mudar algo em mim.
Celisol
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