Escrita Solta

31.5.05


E ela disse-lhe
-- Podes lamber-me. Tomei banho.
(No ar paira uma ausência de tudo.)
com uma voz a preencher o intervalo dos seus corpos.
-- Escrevo-te na pele o que na alma me deixam poemas
E disse-o sem qualquer intelectualidade.
que seriam inúteis não fosse para te possuir.


29.5.05


Já cá venho. Venho mesmo.


17.5.05


Eles vinham os dois descalços, a poeira que ao ritmo do andar se levantava colava-se no suor dos seus rostos onde agora escorria lama salgada. Passaram por mim com a mesma indiferença com que tropeçavam nas pedras quentes espanhadas no chão. Fiquei a observá-los agora que caminhavam de costas para mim, também estas vestidas com camisas tecidas a lama. Pararam! Voltaram-se para mim como se tivessem pressentido a fixação do meu olhar intrigado.Um sorriu. O outro não!

Celisol


e quando as flores nos habitam
o silêncio torna-se confortável.

belíssima composição.

Cláudia Ferreira

(obrigado Cláudia)


a vida nos trópicos não tem disfarces
é impossível ocultar
o que está à flor da pele
o desejo colado nos olhos mornos
ou habitando as coxas úmidas
e mesmo o tremor da voz
que reverbera o convite
feito pelo corpo.

a vida nos trópicos
não se envergonha
floresce

silvia chueire

depois de

A vida nos trópicos
(Sentia o corpo ensopado. O calor era já algo habitual. A sensação era boa e todos os cheiros eram diferentes. Mais fortes.)
agarra-se à pele.
(Não é possível explicar os cheiro das plantas. Talvez fosse das plantas mas algo mais. Das pessoas ou dos sorrisos ou da música que corre no silêncio.)
Estava num bar
-- Quero um café por favor. Da terra e não importado
que é uma vergonha. Como vai.
-- Vamos andando nem bem nem mal e
(Ficaste-me na pele como um perfume de flores brancas. Um travo amargo de flor de papaia na boca.)
e adivinhava-a pela porta. Adivinhava-a pela parede de tijolo recortado. Noutro lugar seria impossível e aqui até a água sabe diferente. O mar
talvez o mar possa dizer-nos afinal
hoje há peixe fresco mesmo acabado de pescar na ilha.
que dimensão tem este azul. O teu vestido é daqui e apenas daqui como sempre foi. E só aqui faz sentido e só aqui importa.
Ela entrou naquele momento
Ele tremia e o dia simplificava-se de tal forma
transpirando bronze. Antiguidade. Uma coisa primordial e oculta.
e tudo desexistia.
-- Olá.
Tremia. Que coisa senilmente inevitável.
-- Toma um café. Ainda só são cinco da tarde.
(Depois vamos fazer amor.)
-- Temos tempo.

wilson t


A VITÓRIA DO PACIFISTA

erva príncipe
(- palavras impuras que tem desenterrado)
misturada com camomila
(- um crime!)
quantas colheres de açucar?
(- olhando as suas mãos diria que é flagrante delito)
então nenhuma. é melhor para o aroma
(- palavras impuras!)
afecta os sentidos
(- insurrectas!)
a língua. queimou?
(- conter a revolução)
pincelar com mel


amaciar a língua
(- erva príncipe?)
misturada com camomila


Divas & Contrabaixos

depois de

Quando o polícia apareceu em casa ainda tinha terra nas unhas. Eu. Eu tinha terra nas unhas
-- Senhor polícia em que posso ser-lhe útil
(Disse-lhe isto como num filme a disfarçar.)
de enterrar um animal
que procura.
Afinal era o dia mundial da poesia
-- Entre
e eu estava farto de palavreado.
beba um chá.

wilson t


14.5.05


Encostou o peito nu ao chão. Adormeceu para tudo o que era racional.
(Que o Mundo se esqueça de mim e tu do Mundo.)
Parece que Deus os havia abandonado naquele sítio e ele
-- Sinto-me bonita. Quando estou contigo as flores habitam-me.
perdia-se com os olhos nela
-- Há uma eternidade ridícula.
e atónito não era mais nada.


A vida nos trópicos
(Sentia o corpo ensopado. O calor era já algo habitual. A sensação era boa e todos os cheiros eram diferentes. Mais fortes.)
agarra-se à pele.
(Não é possível explicar os cheiro das plantas. Talvez fosse das plantas mas algo mais. Das pessoas ou dos sorrisos ou da música que corre no silêncio.)
Estava num bar
-- Quero um café por favor. Da terra e não importado
que é uma vergonha. Como vai.
-- Vamos andando nem bem nem mal e
(Ficaste-me na pele como um perfume de flores brancas. Um travo amargo de flor de papaia na boca.)
e adivinhava-a pela porta. Adivinhava-a pela parede de tijolo recortado. Noutro lugar seria impossível e aqui até a água sabe diferente. O mar
talvez o mar possa dizer-nos afinal
hoje há peixe fresco mesmo acabado de pescar na ilha.
que dimensão tem este azul. O teu vestido é daqui e apenas daqui como sempre foi. E só aqui faz sentido e só aqui importa.
Ela entrou naquele momento
Ele tremia e o dia simplificava-se de tal forma
transpirando bronze. Antiguidade. Uma coisa primordial e oculta.
e tudo desexistia.
-- Olá.
Tremia. Que coisa senilmente inevitável.
-- Toma um café. Ainda só são cinco da tarde.
(Depois vamos fazer amor.)
-- Temos tempo.


13.5.05


Quando o polícia apareceu em casa ainda tinha terra nas unhas. Eu. Eu tinha terra nas unhas
-- Senhor polícia em que posso ser-lhe útil
(Disse-lhe isto como num filme a disfarçar.)
de enterrar um animal
que procura.
Afinal era o dia mundial da poesia
-- Entre
e eu estava farto de palavreado.
beba um chá.


5.5.05


não há lamento ou realidade
que resista
à verdade dos corpos

choramos as misérias da vida
mascamos a contragosto
nosso sofrimento
e o alheio
sabemos nossa mortalidade premente
-ou devíamos-

mas curvamo-nos
de boa vontade
à elevação dos corpos
no amor


Silvia Chueire
~
Muito obrigado Sílvia. Fica aqui o outro texto para melhor entendimento dos leitores.

Voltei a deitar-me no rebordo do teu umbigo
(O que passa pela cabeça a um velho cão.)
e bebi-te a barriga de pele bronzeada quase adolescente quase grave quase a espreitar-te
(O que passa pela cabeça a um cão.)
os poros transpirando e pele em ânsia violenta de mais território
-- Tira as núvens do céu e enche-me a boca de húmidas florestas
mais terra amanhada com mãos secas e já os vermes
rugas
árvores abatidas estrondosamente enquanto todos nos fogem assustados
nos roem o tempo.
deixando de ver no horizonte recto a felicidade dos corpos bravos
guerreiros violentos na única paz de tudo sorver
e não.
-- Enche-me a boca de terra que já
(O real cheira.)
semeio as letras possíveis. Mísseis de vã misericórdia
(A que cheira o real.)
por um amanhã que não
(Sabe-se e não adianta.)
teve ontem. Não teve nada a não ser as mãos procurando de joelhos
rebentando humanamente
-- Leva-me da pele o suor meu e teu
a própria humanidade. Um tempo miserável para os homens
cães sem dono.
Toda esta sujidade de estarmos vivos. Ou de termos desenvolvido cérebro para saber.
Resta-nos a enganadora poesia talvez a música e um acordar mais
para a pretensão ilusória de termos alma
ou mesmo corpo.

Wilson T


4.5.05


--Saí para a rua.
E eis que
naquele momento preciso
todas as portas da rua
se abrem para
com violência
se fecharem
sobre mim
--Não percebo o que me está a acontecer.
O jogo nunca mais
acaba
fico a soletrar
e a gesticular
para a frente
para trás
ratos
--Sei que está mal e então.
Agarro o pendente
knock knock
Onde está o flautista?

Divas & Contrabaixos
~
(Muito obrigado Diva. Fica aqui ntambém o outro texto para melhor entendimento.)

Correm-me os dedos para um cigarro em jejum. Sei que está mal e então. O fumo apaga dúvidas se dúvidas houvesse.
(deitado aqui que posso eu fazer)
-- Julgas-te velho lobo do mar perdido na enseada turbulenta e intempestiva dos teus dias
Tenho uma janela para o mar mas nem o mar
mas não és nada. És um corpo imóvel da vontade própria. Uma peça de engrenagem apreendida na inevitabilidade que não compreendes. De que tens medo.
-- Não percebes o que te está a acontecer. O que escreves já não é teu.
me traz alento. Perdido no perímetro do meu corpo
o que está fora nada me ordena. Perdido por instantes. Só no bater dos dedos e nas palavras que saem sem que para isso faça qualquer esforço
como ratos suicidas que se atiram de precipícios
algo faz sentido.
-- Sai para a rua.

Wilson T


2.5.05


Estava parado no cruzamento
(Para onde ir a um domingo.)
e de frente para ele estava um veículo do outro lado da antiga nacional 1
com reduzida visibilidade para se meter à estrada. Atrapalhado olhava para um lado e para o outro e tinha o pisca para a esquerda.
(Para onde se vai a um domingo.)
Fez-lhe sinal solidário que podia avançar. Coisa de quem anda de carro com carta há mais de uns anos e conhece a vida difícil de condutor.
(Sobretudo a um domingo.)
O outro
ou a outra
(Está um dia chuvoso. Antigamente havia ali uma entrada uma rua e agora há um jardim ou coisa que o valha. Que chuva envergonhada.)
avançou
e veio uma mota imprevista e imprevisível que
não vista
(É preciso ser cuidadoso com este alcatrão molhado.)
a grande velocidade talvez por isso e da curva
embateu brutalmente no tal carro.
-- Liga o 112.
(Não há respeito na estrada.)
Não se sabe como ficaram as pessoas que estavam no carro. As da mota.
(Logo num domingo.)


mascar as palavras
fazer um balão
esborrachá-las na cara.

ângela


A ler.

Poemário. Do Universos Desfeitos. Que merece um muito obrigado.


1.5.05


Voltei a deitar-me no rebordo do teu umbigo
(O que passa pela cabeça a um velho cão.)
e bebi-te a barriga de pele bronzeada quase adolescente quase grave quase a espreitar-te
(O que passa pela cabeça a um cão.)
os poros transpirando e pele em ânsia violenta de mais território
-- Tira as núvens do céu e enche-me a boca de húmidas florestas
mais terra amanhada com mãos secas e já os vermes
rugas
árvores abatidas estrondosamente enquanto todos nos fogem assustados
nos roem o tempo.
deixando de ver no horizonte recto a felicidade dos corpos bravos
guerreiros violentos na única paz de tudo sorver
e não.
-- Enche-me a boca de terra que já
(O real cheira.)
semeio as letras possíveis. Mísseis de vã misericórdia
(A que cheira o real.)
por um amanhã que não
(Sabe-se e não adianta.)
teve ontem. Não teve nada a não ser as mãos procurando de joelhos
rebentando humanamente
-- Leva-me da pele o suor meu e teu
a própria humanidade. Um tempo miserável para os homens
cães sem dono.
Toda esta sujidade de estarmos vivos. Ou de termos desenvolvido cérebro para saber.
Resta-nos a enganadora poesia talvez a música e um acordar mais
para a pretensão ilusória de termos alma
ou mesmo corpo.


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