Escrita Solta

25.4.05


Correm-me os dedos para um cigarro em jejum. Sei que está mal e então. O fumo apaga dúvidas se dúvidas houvesse.
(deitado aqui que posso eu fazer)
-- Julgas-te velho lobo do mar perdido na enseada turbulenta e intempestiva dos teus dias
Tenho uma janela para o mar mas nem o mar
mas não és nada. És um corpo imóvel da vontade própria. Uma peça de engrenagem apreendida na inevitabilidade que não compreendes. De que tens medo.
-- Não percebes o que te está a acontecer. O que escreves já não é teu.
me traz alento. Perdido no perímetro do meu corpo
o que está fora nada me ordena. Perdido por instantes. Só no bater dos dedos e nas palavras que saem sem que para isso faça qualquer esforço
como ratos suicidas que se atiram de precipícios
algo faz sentido.
-- Sai para a rua.


19.4.05


Casa da Poesia.

na noite. definitivo. as pedras. eating poetry. a fome de camões. odeio este tempo detergente.

a ler.


agora queria eu
atirar-me ao chão e
chorar
enraivecida
os cadernos
que rasguei
em acessos
de perfeição.

ângela


18.4.05


Tinha um texto fantástico que escrevi num acesso de loucura literária. Talvez nunca mais
(nunca digas nunca)
talvez
(que incauto e desajeitado escrevinhador)
nunca mais tenha outro assim. Escrevi-o num acesso de loucura
literária como disse
que me deixou ofegante com os dedos palpitantes de jogador de casino. Desapareceu
(terei sonhado)
quando carregava na porcaria de um botão imaginário que diz editar ou publicar
(terei sonhado que o editava assim como omnipotente)
e ele desapareceu. Juro-vos
-- Gritei uma imprópria palavra mesmo para escrevinhador.
que o escrevi assim de rompante qual espadachim francês. Um Victor Hugo lancinante
(terei bebido demais)
lutando com Shakespeare por uma Dama das Camélias. Convertido à luxúria. Em Florença
(sonhei toda esta merda. mas eu juro que tinha o texto à minha frente)
um romance bestial cheio de imprevisto sangue e sexo e perdição
(crime.)
e tudo depurado em meia dúzia de linhas. Maugham e Miller. Agora resumido numa imprópria palavra
-- Gritei.
banal. Shakespeare reinventado numa linguagem de bordel parisiense. Degas e o outro. O anão. E van Gogh. Tanta tinta impressionista despintada. Uma orelha cortada. Os ingredientes todos arrancados à dentada. Cubismo ou surrealismo. Um Picasso de olhos esbugalhados empurrando uma bicicleta com rodinhas de apoio
(que aconteceu.)
e Dali sorrindo com dentes podres. Um violino enfiado na cabeça de Munch. Até Saramago desafiando deuses e vulcões e os homens pequeninos
(capitalistas da informática. falsários.)
(terei sonhado toda esta porcaria. não porque me lembro dos dedos felizes e das letras no ecrã. escrever num ecrã é coisa de besta.)
e labirintos e todos os nomes.
Agora onde estarás. És um pássaro azul metileno num tubo de ensaio bélico voando na rede. Nunca mais. Nunca mais me apareças que eu cuspir-te-ei na cara. Nojento. Não terás descendência nem que acasales mil ciber-prostitutas literatas.
-- Eu juro-vos que tinha um texto que valia a pena ler para este lugar.


À janela IV.

O Alfredo é meu.
O Quim é teu

Seguimos a bola,
pode ser que parta o vidro__
pode ser que parta o vidro__

sem medo
pisa lá os estilhaços,
porque já não há janela
para com ar quente desenhares mais__ luas novas

(o que fazer com tanto vento_______)

Louise. depois de À janela III.


13.4.05


À janela III.

dentro da casa
o rosto encosta-se à janela
a medo
no vidro embaciado o dedo vai
riscando a proibição da euforia

lá fora o alfredo e o quim jogam à bola
a samaritana bate na irmã mais nova
e a guida faz corridas de bicicleta com o vento

às vezes olham para cima e ele sorri
a medo
os lábios riscam a humilhação do prisioneiro

depois______a medo_______________o tempo

eles continuam a brincar na rua
ele tem outra janela

Divas & Contrabaixos . depois de À janela.


À janela II.

na rua os miudos desviam-se dos carros.
ma rua as raparigas enfeitam os cabelos de molinhas e tranças coloridas cheias de missangas quais barbies.
e da janela continuamos a sonhar.

diluida


8.4.05


À janela I.

Crianças correm alegres ao sol saltando à corda jogando à macaca. Joga-se ao berlinde com berlinde de vidro. O mundo azul como pedra preciosa na palma da mão. Girando numa coreografia de órbitas coloridas em rastos de gás. Poeiras atómicas. Uns maiores gasosos e outros mais pequenos compactos. no fundo todos estão no lugar adequado. Tudo parece bater certo e há uma melodia. Risos de criança.
....Falta o pião de madeira e a mona dos meus tempos que eu nunca aprendi a jogar.
(Ah mas como eu gostava de ver. Havia putos que mandavam monas nos piões e os rachavam ao meio. Eram autênticos homens aqueles miúdos.)
....Eu lia. Fascinavam-me as raridades e o recordes do guiness e a história e tudo o mais. Coleccionava uns sumos nuns pacotes que tinham dessas coisas. Não recordo o nome daquilo. Um Tang cultural.
Os miúdos correm lá fora. Saltam à corda. Há risos de criança.
As meninas saltam bastate bem à corda. E há sol. Bola a rolar. Conversas do mundo de fora. Do real.


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