Escrita Solta

31.12.04


Bom Ano de 2005 a todos.
Um abraço com votos de paz.


30.12.04


3.
Na mesa ao lado um jovem rapaz todo muito bem vestido
...(seja lá o que isso for)
diz à rapariga que o acompanha que o olha que se vê gostar dele
...(bela rapariga,)
-- Ouve lá.
...(bela rapariga.)
-- Tu 'tás parva ou quê. Eu não dormi nada com a gaja. Para que é que eu queria aquela gaja.
E a rapariga olha o chão com lágrimas nos olhos. Numa maneira muito particular de olhar o chão como se imagina.
Noutra mesa um senhor de bigode farto estilo monárquico discorre sobre o futro do país da res pública.
-- Sabe vossa excelência que a culpa é destes gajos todos que são uns traidores. Nunca ninguém perguntou ao povo se queriam esta coisada da república. Foi de traição matando o Rei só assim. E agora puseram o país de rastos. Onde está a grandeza de Portugal.
...(bigodes enrolados nas pontas. um pin da monarquia na lapela. bigodes com personalidade.)
E o outro indivíduo a fazer de conta que sim. A fazer de conta que isto está como está por causa da República. A fazer de conta que lhe interessa a conversa para manter um ar respeitável e a pensar também ele.
...(talvez se ande a fazer demasiado de conta.)
Na mesa do fundo. Mesmo a um cantinho do café há um indivíduo nervoso que fuma desenfreadamente e que parece bastante distante. Talvez tão distante quanto eu estou agora.


29.12.04


2.
-- Pois é. O senhor tem razão. Agora
infelizmente e para mal dos nossos pecados
as coisas são como diz.
...(os intelectuais estarão onde. giram em torno de subsídios. estão fechados a discutir o Mundo nas revistas da especialidade com referee. ou andam por aí em museus do pensamento. também não sei. mas que isto se apagou um pouco isso sei.)
-- Então que tal o cafezinho
sabe que não sei o que os velhotes passaram a esta juventude
não diga que não está bom. Nós aqui
em abono da verdade
só temos café de primeira
mas penso que se eles não se interessam muito pelas coisas do país dos livros da cultura da língua isso é culpa da geração anterior
da nossa.


1.
Decidi acender um cigarro. Não que esteja viciado. Não estou.
O fumo é um prazer
um capricho agradável que me descontrai.
-- Apagou-se ora bolas
acendo-o outra vez
...(este isqueiro azul. já não me lembro de quem mo deu. não fui eu que o comprei)
As letras saem melhor por entre o fumo
...(podia fumar o cachimbo. afinal o aroma é bem melhor.)
desfocadas como convém. Não gosto de uma escrita demasiado nítida. Nem a mão mo deixa.
-- Um café por favor. Sem açucar.
Dizem que os verdadeiros apreciadores de café não o tomam com açucar. No meu caso não é por isso. É porque gosto dele assim e só isso.
(paredes azuis. de um azul velho. tubagens usadas como elemento estético. quadros com desenhos bem feitos a imitar o antigo. as antigas coisas do café. sacos de serapilheira com as marcas de diferentes origens. negros escravos com sacos às costas e um ar feliz. brasil angola timor e muitos outros sítios. colômbia. como eram belas estas máquinas antigas feitas de metal reluzente. há uma ideia de prosperidade nisto tudo. dir-se-ia colonial. o belo que esconde o trágico talvez. estarão melhores as coisas depois das revoluções.)
Leio o jornal mas os jornais não estão ao meu gosto hoje. Não há poesia nem história nem viagem. Que porcaria de jornais.
-- Desculpe. Porque não há livros neste café.
...(o homem ficou incomodado com a pergunta. mas tinha de a fazer. saiu-me. cansei-me de ficar calado.)
-- Livros para quê. O patrão
que nem sei quem é
gosta que as pessoas consumam e não demorem muito tempo
já viu se pusessemos aqui livros.
-- Compreendo-o. Já não há tempo para estas coisas. Cafés onde se possa ler
conversar
tratar das doenças do Mundo.
-- Isso é nos filmes meu caro amigo
...(o empregado de mesa faz o tipo de um personagem de filme. podia muito bem ser o velho confidente de senhores amargurados e infiéis. homens de Estado. políticos. espiões.)
agora já não há cafés assim
bem que eu gostava de trabalhar num desses antigos lugares que eram bem mais do que um simples café. Eram a segunda casa de tanta gente. E olhe que eu bem sei que houve deles que se tornaram famosos pelos seus clientes habituais. Gente das letras do teatro da música
da cultura
gente da nossa gente. Antigamente os intelectuais saíam à rua.


CASA DA POESIA.

Aqui pretendo publicar os poemas da minha eleição. Aqueles que for lendo. mesmo que não sejam de eleição. Aqueles que os meus amigos e amigas me quiseem enviar. Contribuam por favor. Um abraço e votos de saúde.


Feliz Natal III.

Um Homem agigantou-se e de uma pedra de granito são construiu uma mó que deu às águas um novo sentido. Do milho do norte fez o pão do sul. Do milho do sul fez sementeira. E fez farinha usando as forças da natureza. Daquilo que tinha a mais do que os outros seres. Apenas isso. Apenas um silêncio entre gritos.
Percebeu-se que não pode haver alegria na fome dos outros. Percebeu-se que a ignorância e a cegueira não colhem senão tempestades. Mesmo quando os castigados são sempre os mesmos. Um dia. Talvez um dia a sorte suba o monte e invada os castelos da vergonha. Terá de ser assim pergunto.


27.12.04


Elogio do leitor. Da amizade. Da companhia. E da beleza.

Quero agradecer a todos aqueles que aqui vieram ao longo deste ano. Por me terem feito companhia. Pelas palavras que deram jeito. Que enriqueceram o Escrita Solta. Por me terem lido e prestado atenção. Por me terem lido. E por me terem dado coisas tão boas a ler.
*
Quero agradecer a especial companhia

da Louise
da Sílvia
do Fernando
do Luís
do Juraan Vink
da Laurindinha
da Miss Kafka
da Soledade
do Pedro
da Maria do Rosário
do hfm
da Marta
da Luísa
da Cláudia N.
do João da Cal
da Ângela
do LetrasAoAcaso

e de outros que não têm blog.


Feliz Natal II.

E um anjo branco veio quebrando o gelo em ruidosa sinfonia. Abriu suas asas quentes de penas e abraçou o mundo. Dentro dos dias ficou um homem novo.


26.12.04



Marisa e Priscilia. Há uns anos. Continuam lindas.
*
Éramos todos crianças,
a inocência derramando-se dos nossos olhos.
Houve este tempo.
Olhávamos.
Nosso olhar tal como ele era.
Sem defesas que não as que nascêramos com elas.
Ainda não sabíamos.
Ou agora é que não sabemos?

Silvia Chueire


25.12.04


FELIZ NATAL.

Uma senhora de idade arrastava-se pela rua já noite. Mancava. Levava penduradas nos braços as compras para um eventual Natal. E muitos anos muitos dias. Parou no passeio olhando o caminho pela frente. Perguntando-se se valeria a pena ir para casa onde a aguardavam um gato siamês já velho e um cão velho já meio siamês da vida partilhada com aquele gato de personalidade forte.
Deteve-se um pouco suspirando. Continuou. Pois sempre aprendeu que a vida apesar de tudo é em frente.
____________________________________

Um senhor que não deu para ver se era velho ou novo preparava laboriosamente a sua cama. Preparava. Vejam-se o requinte desta cena. Uns sacos plásticos retirados ao contentor de desperdícios urbanos. Uns cartões. De almofada uma Marie Claire já um pouco gasta. Uma arcada nas traseiras de um prédio de lojas comerciais. A segurança de uma noite descansada por falta de vizinhos. Não deu também para ver o que ia ser a ceia.
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Uma menina pergunta ao pai se porventura aquele senhor não gosta de morar em casas. Mas rapidamente percebe que a cena é triste. Pai. Levamo-lo lá para casa. Janta connosco. Era a melhor prenda que me podias dar.
As crianças não são cruéis. Muitas vezes são apenas educadas.
____________________________________

Um menino que passava na avenida cinzenta de frio sentou-se. Descansou os meus olhos quando se ajoelhou diante do senhor e lhe deu inteirinho um pastel que comia deliciado.


19.12.04


Explicação às tartarugas sobre a inteligência e a beleza e já agora a humildade.

Não Rita. Já te expliquei que és inteligente. Tens que te esforçar mais apenas isso. E acreditar nas tuas capacidades. Autoconfiança. Não podes estar sempre a esconder a cabeça. Os maus resultados nos demais testes da vida são apenas fruto da tua ausência de coragem de determinação e confiança.
Ah e já agora toma mais atenção nos azuis dos mares e nos castanhos das terras. E guarda ideia dos intermédios com precisão. O pormenor tem sentido e sentidos. O pormenor encerra a paixão mágica das diferenças. Estará a magia em ti. No teu olhar. Tanto como na coisa olhada poderá ser.
Sabes bem que não. Essa carapaça colorida não é o que de mais belo tens. Não é sequer inteligente. Não tem calor para os outros. Poderá servir-te em algum momento de escudo ou ornamento mas apenas a ti. Mas não te envaideças com a capa do livro que dentro vai podre. Mais vale uma página em branco. Usa o sangue que pulsa. Escuta. Observa. Sente.


(i)

Não que se usassem muito os grandes nomes
mas vai daí, talvez por ser um homem muito alto e encorpado,
coisa também rara para a época,
era uso lhe chamarem de Francisco Xavier.
O arrais.

Mestre de barcos de fundo chato esculpido
bordador de redes com que enche o barco
e que depois lança às águas.
Rico, áspero, rigoroso, bruto e generoso.
O arrais.

De familia dizia-se parco.
Uma mulher fraca doente
rosa de nome mas pálida de cara
e um único filho a que chamou Abel, na esperança de um dia ainda ter um Caim.
Que não era de brigas ou de mortes. Era de crenças e de lemas. E que um homem deve invejar para ser maior. Mas assim não quis a sorte.

(ii)

Aos amigos emprestava
em momentos de aflição
e na cobrança ao que dizem
não tinha TINHA de cão.

Mas à mulher não esquecia
de dizer com mau rancor -
se UM dia te vais desta
caso-me logo de novo,
compro logo outra aliança.
Quis a sorte que o futuro
ocorresse de outro modo.

À cabeça da xávega em dia de tempestade
bate-lhe uma onda no peito.
Que NUNCA mais foi o mesmo.
A dor não matou ali para ir matar mais à frente.

Fica a Rosa e o Abel
mais as VOZES que lhes dizem
que o Francisco Xavier
é credor de muito ouro.
E cadê dos passeantes?

Quis a sorte que o Abel descobrisse
por acaso,
no virar de um velho quadro,
dez mil reis empoeirados.

Vende a xávega do pai.
Compra terras de lavoura.
Outra estória se seguiu mas essa guardo-a mim.
Quis a sorte que o Abel tivesse um filho Manuel e esse, caros LEITORES, foi o pai que me serviu.

DivaseContrabaixos. depois de X.
(espero que não te importes. não percebi se o pedido era para apagar o meu texto por estar mau. se era para apagar este por qualquer outro motivo.)


15.12.04


X.

Xávega. Barcos de Arte Xávega. Os homens fazem-se ao mar. Eu sei. Sei bem disso e já os vi agarrados à tempestade pelas barbas batendo-lhe os remos com toda a força. É assim que esses homens me perturbam na sua coragem rasgada. Sulcos no rosto que são estradas iluminadas. Rios desaguados.
Xavier. Xavier também começa por um X. Xis. Xavier dá um bom nome para pescador. Velho lobo do mar.


Lugares a seguir.

Barbeado com ódio.
Diário Abjecto.
(desculpa Gato a publicidade gratuita. podes pagar-me um café e fica tudo bem.)


14.12.04


Não medito.Enlaço as mãos que atiro para trás das costas e sigo.
Comigo levo um sentimento preenchido com casas de janelas baixas. Um fado.
Do outro lado da rua a multidão corre apressada.
Homens rápidos que balançam braços caídos para a frente e para trás.
Às vezes tocam-se, ou talvez se atropelem.
Atravesso a rua. Com as mãos atrás das costas. Comigo levo a ânsia de um toque.
Já não vejo gente no passeio.
Solidão que vem do fado, não das gentes.
Não medito.

DivaseContrabaixos. depois de V.


as janelas oferecem claridade, dizia. e então comprei uma casa com janelas amplas. no primeiro dia entrou brisa e azul. no segundo entrou frio e cinzento. no terceiro água e violeta. ah, as janelas oferecem elementos e cores. voar, esbarrar contra paredes, mergulhar, consoante o céu da terra onde fica a minha casa de janelas amplas. pois, os barcos. como é o céu da terra que ondeia?

DivaseContrabaixos. depois de U.


São as tempestades interiores que nos alimentam.

hfm. depois de T.


Também a mim me incomodam os que dormem entre-cartões após terem dado o melhor de si ao colectivo.
Indigno-me.
Abraço.

LetrasAoAcaso. depois de S.


Infelizmente há dor sobre as pedras da calçada e é negra a luz do olhar.

luisa. depois de S.


V.

Venho perdido a este mundo de ruas. Não me encontro por entre tanta gente.


U.

Ulterior é que não me ensinaram o gosto pelas manhãs cinzentas. Não consigo vencer esse desprezo que tenho pelo trabalho fora de casa nessas circunstâncias. Por quase tudo nessas circunstâncias. Ultramar tempestoso da alma. Ansiedade por poder partir mar adentro. Pescar. À caça da onda larga. De outro azul. E o sol sobre a cabeça sobre a água apontando miragens. Coisas de velhos lobos do mar. Coisas que não me ensinaram mas eu procuro. A força de braços que tem nos calos mais inteligência que muitos livros. Sim. Acredito que gostaria de estar num bar de abismo para o mar com esse homens nesta manhã cinzenta. Em todas elas. Aguardando uma brecha na tempestade.


10.12.04


T.

Trazer na alma alegria. E a tristeza ser uma força. Uma água de escorrência sobre a Terra. Violenta. Uma tempestade interior. Que arraste toda a lama para uma bacia de deposição. A diagénese apoiada na gravidade e no tempo fará o resto. É preciso amar as rochas as pedras. Chega de sedimentos. Se não dão bom solo mais vale o desabamento. O ciclo trará os metamorfismos necessários. Novos magmas. Vulcões. Explendor.


9.12.04


A praia I. (texto)

A praia é uma extensa varanda sobre o mar. Ao vento ondulam plantas em vasos suspensos. As correntes que os seguram chiam no baloiçar que me indica as horas o tempo o clima. Sento-me numa cadeira de madeira confortável. Bebo qualquer coisa quente ao fim da tarde. Vinho entrando pela noite. E leio. Ah como são boas essas horas imaginárias em que tenho tempo para ler assim. Na praia. Na varanda sobre o mar.


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