Escrita Solta

29.11.04


S.

Submissa natureza. Podridão. Sem remissão uma chuva que não lava. Uma tempestade que não pulveriza. O dia cai-nos em cima cinzento quando avistamos um pedinte só. Gélido. Frio. Um Homem que morre num silêncio vegetal com o seu Mundo. Doem-me os pedintes que habitam o negro das noites de cabelos brancos de abandono. E não há trovão nenhum que traga luz a este beco. A vida é uma cuspidela na cara.


21.11.04


R.

Revolução. Permanente revolução. Não me digam que não. Não me digam que sim. Detesto os arautos das revoluções de cartilha. Para consumo. Para tv. Revolução permanente sim. Intestina. Um vómito a transbordar de palavras mortas. Palavras cheias de fome e sede. De estilhaços de bomba. Palavras negras. Palavras de olhos fechados ou olhando para o lado. Palavras sem gente sem pessoas. Ah revolução da treta aqui e noutros lados. Querem impor aos outros a tagarelice do cidadão bem comportado do estado bem comportado. Mas onde está a nossa revolução intestina. O vómito a tanta fome. A tanta solidão. É preciso uma revolução. Intestina.


19.11.04


Parado.

O tempo tem escorrido noutras direcções. Desculpem.
...
Agradeço aos que têm enriquecido aqui o pedaço com os seus textos. Que bom é ter-vos por cá.


Sim... Na Praça do Peixe. Quem deixou secar os malmequeres Quem manchou de castanho as violetas brancas e roxas Quem dos miosótis se esqueceu Quem apagou as flores.
Quem acendeu lilases envoltos em verdes limos da ria? Quem.............

marialice. depois de Q.


Quem deixou ali a marca acinzentada da ausência, como se fosse uma sombra, a assombrar-me a vida?
Quem pegou o meu vulto em chamas e apagou-lhe o olhar, o brilho, o calor?
Tu?
Não é fácil buscar respostas. Elas sugem de uma escavação ( quase)arqueológica para a superfície, como se fossem luz. Temporária,mas luz.
Quem arrasta as minhas perguntas, o meu desejo, o afeto mesmo, nas rochas, como se fossem mero olhar enquanto sangram?
Eu?
Melhor sentar-me à varanda nesta noite.

Silvia Chueire. depois de Q.


16.11.04

6.11.04


Q.

Quem. Quem deixou o sol aceso de noite. Quem o apagou ao amanhecer. Quem viu a lua num candeeiro na Praça do Peixe. Acendeu um cigarro e viu pessoas na sombra no escuro. Na inexsitência absoluta. Na mera podridão de um corpo. Viu tudo o que tinha afogado naquele barato vinho tinto.
Que. Que magnífica é a embriaguez dos sentidos.
Quando a noite desce que seja líquida. Uma corrente marítima de sangue. Cheio de neurotransmissores. Nicotinas.


5.11.04


Pergunto-me todos os dias,
porque o teu silêncio me obriga a perguntar-me .
E a tua ausência é uma parede áspera
onde me encosto sem consolo.

Num monólogo tedioso
(embaraçado nas minhas palavras,
nos meus atos)
que não consigo evitar,
eu me pergunto:

Por quê?

Silvia Chueire. depois de P.


1.11.04


P.

Porque anda a roda naquele sentido. Porque a sobrevivência ganhou cérebro desenvolvido. Porque anda a roda naquele sentido.


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