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31.10.04
30.10.04
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Sábado, Outubro 30, 2004
by WILSON T
Quando eu te esquecer, quero esquecer-te completamente. Nunca mais pensar em ti. Não hei de dizer: serás meu amor para sempre. Não será verdade.
Quando eu te esquecer, tu não existirás mais. Nunca terás existido. Não terás corpo. Não serás palavra ou silêncio. Não serás o meu repouso, nem eu serei a tua liberdade. Não envelheceremos lado a lado, e eu não terei esta dor.
Quando eu te esquecer, apenas um pouco antes, terei pedido a algum deus que eventualmente exista que tu nunca possas esquecer-me. Mas, estranhamente, nunca me alegrarei por não o fazeres. Não quero ser memória, não quero ter memória.
Silvia Chueire. Depois de O.
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Sábado, Outubro 30, 2004
by WILSON T
Enovelo os pensamentos na angústia.As mãos apertadas a conter o que me aflige. E me ocorre sempre pensar : talvez a angústia seja estes fios invisíveis que tomam conta de mim, porque te espero e tu não vens. E tu não estás. E tu calas, no teu silêncio de pedra.
Silvia Chueire. Depois de Não te vejo.
28.10.04
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Quinta-feira, Outubro 28, 2004
by WILSON T
O.
Olvidando. Não ouvir a memória ou nem querer mesmo saber dela para nada. Olvidar dá jeito às vezes.
27.10.04
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Quarta-feira, Outubro 27, 2004
by WILSON T
Não te vejo. Não te entendo. Emudeço esse grito lancinante. Procuro sem encontrar essas vielas de paz.
Anónima (o). depois de G.
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Quarta-feira, Outubro 27, 2004
by WILSON T
N.
Nunca. Não. Nunca não podemos dizer.
26.10.04
25.10.04
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Segunda-feira, Outubro 25, 2004
by WILSON T
M.
Mar. Definitivamente o mar. Esse azul líquido como horizonte fundindo-se com o alto. Uma linha média no pensamento. Na abstração. Um sistema de equações procurando resposta para as variáveis. Relâmpago. Chuva. Um sol já esgotado que hoje não me aquece. As gaivotas em terra refugiando-se. Deixando a sua subtil mas bem desenhada presença na areia. X barcos que partem. Y barcos que chegam. Eu na varanda ouvindo o vento arrastando a duna sobre os cardos marítimos. Os narcisos. Outras tantas plantas. Caranguejos eremitas arrastando a casa num rendilhado único. Num alfabeto imperceptível. Folhas esvoaçando. Ainda crianças na praia ao longe se ouvem gritando. Eu na varanda lendo um livro. Coisas simples. E tu onde estarás.
23.10.04
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Sábado, Outubro 23, 2004
by WILSON T
J.
Já. Já ia silenciosa a noite quando pressenti os teus passos. Partias. Mesmo sem o saberes partias. Escondias os olhos de mim. As tuas retinas eram escuridão da mais pura e antiga. Como se se tivessem apagado todas as esperanças. Todos os sorrisos.
Não me importo que partas. Que sigas viagem. Mas vai com um sorriso. Não semeies cinismo por aqui. Já outros partiram antes. Já outros partirão. Eu estou em constante viagem por exemplo. É preciso dizê-lo quando tem de ser. Adeus.
22.10.04
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Sexta-feira, Outubro 22, 2004
by WILSON T
I.
Impossível não escutar a tosse feminina que vem daquela imaginável esquina. Uma reentrância de um prédio. Um choro. Talvez tossindo os últimos dias. O súplico de alguém. Nunca saberei.
21.10.04
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Quinta-feira, Outubro 21, 2004
by WILSON T
H.
Há. Há cartazes nas paredes que são como cartas de amor. Basta que saibamos ler as palavras queridas. Estão para ali perdidos à intempérie. Quase soltos no vento na chuva. Desbotadas as cores de imensos rostos desenham um arco íris na solidão. Basta que saibamos ler. E há palavras queridas que são cachecóis. Agasalhos contra os vírus. Não. Não é preciso matar animais de pêlo macio. Nem focas nem raposas nem outros mamíferos. Trazê-los das florestas mágicas ou dos polos de gelo. Não. Além do mais é caro e bárbaro.
Há. Há felicidades mil nas ruelas graníticas dessa cidade. Os romanos deixaram esses paralelos infindavelmente duradouros. E duros. Há palavras doces e cruas na pedra. E não é preciso mais do que isso. Basta que saibamos sentir-lhes o arrepio.
Há. Há vida nas húmidas paredes dessas vielas. Na água que banha o granito ou outra pedra qualquer há vida. Há algas subaéreas e musgos. Há rumores do sangue que me bombardeia inevitavelmente o corpo e o cérebro. A razão.
Há na tinta que escorre abandonada à noite fria uma vontade de escrever. Basta que saibamos tocar-lhe.
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Quinta-feira, Outubro 21, 2004
by WILSON T
Não queria que me visses assim. pensei.
ainda consegui pensar. nem me lembrei que para ti a casa continuava a ter o tapete de uma só cor. onde nos deitávamos e me contavas a dificuldade que é viver com tanta gente. Com tantos bichos como nós, ou não.
não me lembrei que continuarias a sentir o mesmo cheiro no regresso a casa. quando decidiste que era importante escolher um cheiro, tal companheiro que nos é fiel na doce solidão das ausências prolongadas.
A roupa foi apodrecendo, amor. primeiro comprei um higrómetro depois até o meu suor enviei para o laboratório. depois pensei que era um problema de visão. troquei óculos e a pergunta se fazia colecção de armações até me fizeste. Um pouco de loucura achaste quando comecei a usar lentes e óculos.
compreende que só na rua com a chuva contra a cidade, com os animais a responderem em coro à trovoada, poderia abafar o teu grito__ quando um dia me visses nu nesta casa. casa que eu só soube que tinha tapete por ti.
Louise. depois de G.
20.10.04
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Quarta-feira, Outubro 20, 2004
by WILSON T
G.
Grito lancinante. A rua por mais fria que seja é às vezes o melhor refúgio.
A chuva abunda ruidosa. Perdem-se dos ouvidos todos os sons aguçados do mundo. A dor.
Vi-te.Vejo-te e entendo. Andas protegendo-te da multidão esquecida por essas vielas de paz. De nada.
9.10.04
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Sábado, Outubro 09, 2004
by WILSON T
fantasia são as nossas mãos tocando
o intocável
com a certeza momentânea do toque.
a certeza faiscante.
é algo que paira entre o desejado e o possível.
paira ou navega manso,
intrometendo-se em outras realidades.
são nossos olhos a perceber pequenas diferenças fundamentais
antes desapercebidas.
são nossos pensamentos e corpo dedicados a galgar o sonho,
escrever lentamente a possibilidade.
Silvia C. depois de F.
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Sábado, Outubro 09, 2004
by WILSON T
Desgarrado, como a insónia e o discurso interior. E um Corto Maltese entenebrecendo a noite?
beijo, Louise e Wilson
Soledade. depois de C++.
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Sábado, Outubro 09, 2004
by WILSON T
Esta espera branca, de milhares e milhares de palavras. Todas alinhavadas na mesma esperança.
Ouves?
Todas elas e a minha voz cantam, atravessam distâncias.
Querem escutar teus passos próximos.
Silvia C. depois de E.
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