Escrita Solta

18.4.04


Parede XXII. (o texto)

Há farpas que se cravam no aguçado olhar que procura penetrar-te. Ruiste numa parede de tábuas. És a casa pobre dos pobres. Ardes de sol de pé em amarelos torrados. E o sangue que brota dos pregos ferrugentos lembra um livro velho. Das estórias do bem e do mal. E há um tecto de zinco que não te deixa sonhar.


14.4.04


Digo: não há parede. Cada uma das pedras pousou no côncavo da mão, e os dedos atardaram-se. Nelas. Devolveram-nas. Podia ter deixado de haver parede.

Soledade, depois de Parede XIX.


9.4.04


é preciso amar
redescobrir o corpo no amor.
resgatar aos dias, à lembrança,
a glória da paixão.
Porque o tempo mastiga as palavras,
transforma a memória
num baú antigo.
E passa célere fazendo-nos esquecer
essa alegria,
nossa natureza.
depois, talvez precise escrever.
e repousar o rosto
no teu peito.

eugênia, depois de Parede XXI (o texto).


volta fugaz

o corpo esqueceu-se de parar. percorreu gente, misturou calçadas com delírios. Escutou e cozinhou sentires. num tempo explodiu. espirrou aromas, desorientado
trocou nomes. O corpo esqueceu-se de parar. O corpo esqueceu-se de si. repete palavras soltas. os olhos recomeçaram a escrever para te dar um abraço. para beijar a memória.

Louise, depois de Parede XXI. (o texto)


Depois de Parede XXI.(o texto). Obrigado.

1
Preciso de profanar o branco com o sangrio sofrimento até os meus pulsos ficarem entreabertos. Que desses pedaços de papel escorra toda a negra tinta que tinge as profundezas do meu ser. Porque nada é imaculado, porque nada é branco, porque tudo é nódoa.

sibylla

2
Também gosto/preciso de branco.

ângela

3
do branco traquilo, revelador e, por vezes, mudo. que me faça descansar também.

Márcia

4
A escrita é um exercicio sofrido e sofrível, assim como viver. Acordar todos os dias e aguardar as correntes de ar que nos fazem correr. Em qualquer sentido.
Parabéns pela coragem. Um site dedicado ao exercicio do que nos define é "obra"!

M.Nina


3.4.04


Parede XXI. (o texto)

Preciso descansar o corpo. A alma ou o que isso é. Recuperar a memória destes dias intensos. Roubá-la a essa imensa maré. Esse rio violento que me arrasta no tempo. Tudo me surpreende e apaixona e revolta. Não me dá tempo a natureza. A vida. Levam-me os dias e eu que levo nos meus braços. Nada ou pior do que isso um turbilhão de coisas sem nome. As palavras por descobrir. Pedaços de papel escorrem escritos da parede que me divide. Preciso do branco tranquilo e revelador.


Parede XX. (o texto)

Guardam nos amarelos e azuis antigos a história. Guardam os tempos de mouraria e outras misturas. O povo feito de barro pintado. O povo é de muitas cores. À volta de uma mesa de um vinho de uma conversa estamos juntos. E mesmo distantes naquilo onde pode haver distância estamos juntos. Recordo-vos no peito cheio de imagens. Uma parede de azulejos antigos sempre renovados.


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