Escrita Solta

27.2.04



Parede XVII.


Gosto da cidade ao fim do dia II

Gosto de esquecer que existo e ser feliz de existir nas subtis felicidades que pairam. Nos sorrisos das crianças. No teu olhar tranquilo e doce. Andar descalço à beira-mar procurando algum frio ao entardecer. Quando já não há quase nenhum sol. Quando ao apanhar conchas me esqueci das horas. Do mundo. Quando o único som é o esquecimento da superfície. Quando a melodia é o fundo do mar. Depois procurar o caminho para casa re-existindo-me. Sabendo encontrar-te num jantar calmo. No vinho tinto. Num cigarro que zangada me permites antes de nos entregarmos aos corpos. Ao reconforto das horas únicas.


Mar ondulante.

Há um mar ondulante em cada povo. Mas o que interessa é a identidade. Profundidade. Navegar de âncora posta nessas águas. Onde nem sempre a luz abunda mas é urgente encontrar leituras.


26.2.04


Tem que haver mar.
Andar na avenida ao ritmo que me é imposto
Com a música de fundo que entra em mim como comando à distância
Por isso
tem que haver mar
para retornar a mim.
leio-te o meu livro. e quando me sentes cansada ,
passo a ler o teu sinal. abandono o livro na minha barriga. não sei quanto tempo te vais demorar no sentir da cor do meu corpo. às vezes
a tua boca molha o meu mamilo para eu sentir frio e te querer mais. ou me falas baixinho. ou agarras a minha coxa com força. ou fazes de meu cobertor. ou és um mar agitado ou um mar calmo.

na lareira. é outro ritmo. é o nosso ritmo.
Louise , depois Gosto da cidade ao fim do dia.


24.2.04


gosto da cidade ao fim do dia. num cinzento-prateado que invade aquele por-de-sol. tem que haver mar. calmo ou agitado que não sou de ideias fixas. nem gostos. pode ser imaginário. tem que ter espuma marcando o compasso das ondas. a amplitude. a cidade é energia mesmo que adormecida. é uma avenida em linha recta. é correria. é ruído. gente. e depois é o contrário. da cidade fica-me o teu corpo à beira-mar. e nua um livro sobre a tua barriga. essa sala com lareira. chuvendo escritas inapagáveis. porém suavizadas num beijo. um beijo qualquer.

(comentário ao texto Inquilinos e sapatos da Louise)


Faço parte do chão, mas quando sonho sou azul, além das nuvens.

Miss Kafka, depois de Olhar para o chão.


Quando olho para o chão em noites claras, vejo apenas o reflexo de uma lua que nos é comum. Espelhada no betão diz-me onde está quem procuro. E lá vou eu.

celisol, depois de Olhar para o chão.


Às vezes, precisamos de olhar para o chão para vermos o que verdadeiramente o que está à nossa volta. Curiosidades.

LA , depois de Olhar para o chão.


o que tenho a dizer-te
seria uma infinidade de palavras,
se não fosse silêncio.
uma infinidade de gestos
se não fosse música.

mas é preciso que me encontres.
é preciso
que te encontres.

eugênia fortes, depois de Parede XVI.


Silêncio. Um muro. Mais uma tentativa. Tentativa de um novo inicio. Um tempo de dormência. Um tempo para esquecer. Um tempo para partir. Um tempo... será fácil? será simplesmente mais um tempo?

su, depois de Parede XVI.


Acho que é um domingo em que todos estão se sentindo emparedados, querendo se desfazer sobre a face das águas.

Daniel, depois de Parede XVI.


São muitos os misterios envoltos nas teias do pensamento...

Luisa, depois de Parede XVI.


23.2.04



Olhar para o chão.

Olhas para o chão porque te carregam a alma com alforges. Mas nele também consegues sonhar o céu. Que nisso não se distraia aquele que em ti se quer montar.


22.2.04



Parede XVI.

Que me queres dizer. Apesar do teu silêncio leio que me queres falar. Há alguma coisa detrás desse muro que importuna a minha curiosidade. A minha relação fisico-química contigo. Com o mundo. Será preciso saltar paredes para te encontrar. Se queres ficar só porque anuncias em teu silêncio que tens tanto a dizer.


20.2.04


Febre.

Alguma febre. Dores de cabeça. Transpiração. E frio. Coisas que jogam mal. Dói o corpo. Calor. Inconstância. Ansiedade. Dói o corpo e a alma o que é. Não sei. Transpiração. Dificuldade em abrir os olhos. Intensidade de luz. Ardor. E a alma o que é. Livro. Talvez consiga ler. Ouvir música nas páginas que se voltam. Aquele prazer habitual. Um copo. Vinho de preferência. Não. Dói o corpo. E a alma o que é. Termómetro. Afinal nem é assim tanta a febre. Talvez uma avaria momentânea. Vírus. Apenas ranho. Corrimento nasal. Uma porcaria qualquer. Canja de galinha. A falta que me faz a tua canja de galinha.


18.2.04


minha poesia é "pau-a-pique"

gostei disso.

abraço!

Chris, depois de Nao me deixam ver.


Carne na carne.

Miss Kafka , depois de Nao me deixam ver.


13.2.04


Nao me deixam ver.

Nao me deixam ver o que escrevo aqui. Regressarei ao papel noutras letras. Noutras escritas. O aborrecimento de nao ver o que se escreve. O contacto fisico com a palavra. Tijolo a tijolo.


8.2.04



Parede XV.


Depois...

Por momentos,
tudo para,
algo se altera,
meus olhos fixam-se no teu olhar.

su, depois de O teu olhar.


Cada dia,
cada hora,
cada minuto,
cada segundo,
espero por esse olhar.
Quero sentir,
sentir o teu olhar.

su, depois de O teu olhar.


Há pessoas assim. Marcam-nos para sempre.E em tudo.
Rita, depois de Entre os espaços.


Sentir o invisível. Sentir que quero transformar as nuvens e o azul em misturas de matizes de tinta.
Miss Kafka, depois de Entre os espaços.


se eu acreditasse escreveria:
deus.
creio no entanto no olhar amoroso
dos homens quando sabem,
que a vida é isso :
o privilégio .
de um beijo após outro
de uma mulher,
da mãe,
dos filhos,
dos dias que se passam
apesar da dor.
nuvens em que descansamos,
benção e desafio.

eugênia fortes, depois de Entre os espaços.


7.2.04



O teu olhar.



Entre os espaços.

Entre os espaços ocupados pelo visível sei que estás algures. Todo o lado. No avesso de todas as coisas. Aquilo tudo que não sei explicar e muito menos percebo. Um fascínio eterno pelo que deixas chegar até mim escondendo-te. Essa suavidade no toque pela mão dos céus. Esse beijo de chuva. De mar. Encontro-te sempre que acordo de qualquer noite. De qualquer ausência. Sentir é uma benção. Um desafio permanente.


Porque parece que me quer tocar. Sentir o calor da minha epiderme e marcar aí a impressão digital como um fóssil.Porque parece que me quer deixar uma marca, e deixa. Cada vez que me toca.
celisol, depois de A tua mão.


6.2.04


um toque. um arrepio. um coração que se agita. um bom momento.
su , depois de A tua mão.


4.2.04


De volta para o aconchego.

Raro. Muito raro. Aqui uma letra de canção.

De Volta ao meu Aconchego.


Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade,
Querendo um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade.

Que bom poder estar contigo de novo,
Roçando teu corpo e beijando você.
Pra mim tu és a estrela mais linda,
Teus olhos me prendem, fascinam,
Na paz que eu gosto de ter.

É duro ficar sem você vez em quando,
Parece que falta um pedaço de mim.
Me alegro na hora de regressar,
Parece que vou mergulhar
Na felicidade sem fim.

de Dominguinhos & Nando Cordel
de preferência na voz de Elba Ramalho