Escrita Solta

30.11.03



Parede X

És uma parede crivada de janelas. Vejo sem ser visto. O que a luz me traz. Por pequenos rectângulos de vida que só de perto fazem sentido. À distância nada mais que um vitral nevoeiro. Uma ilusão de que tudo está perfeitamente bem enquadrado. Distração televisiva. Prisão. Aproximando-me vejo-nos lá fora correndo para lado nenhum. Mas as crianças brincando na inocência. Esperança. Minha esperança. Volto-me para mim no desejo de fazer alguma coisa para parar o relógio no ciclo inevitável do tempo. Relaxo os braços sobre a folha excitando o olhar no branco do papel. Que escrever. Que fazer. Saio para a rua sob um dilúvio de ideias. Sinto sobre a pele a alegria de estar vivo. De poder amar.


29.11.03



De mãos dadas.
Ficámos assim numa fotocópia. A preto e branco. Antigos. Partilhando o toque da pele que nos fundiu e a luz quente da máquina que nos fixou. Para sempre.


28.11.03


Não estás a deixar afixar imagens blogue maldito. Diz-me porquê.


27.11.03




A Noite (dedicado ao Aviz assim em cima do joelho)

A noite é uma ave de rapina desperta no sossego de uma sombra. Uma resistência alargando a vida numa chávena de café num cigarro num chá na solidão desejada. É no escuro ver melhor aguardando o dia. É o confronto com o eu. Com todas as coisas. A angústia do que não se foi não se fez. A ansiedade do que não se será ou sim. Da roda rentada do fim. Não da manhã fresca e boa mas o medo do fim. A necessidade de alargar as horas. O prazer da pele da alma. Beber um bom vinho. Ler.



Parede IX

Notam-se em tua verticalidade restos de fogo que terão vergado gente. Terão atirado ao chão pedaços da chama que eles traziam dentro dos dias calmos. Tudo ardeu. Não foste capaz de suster senão a memória nesse teu direito justo de também perecer à maldade. Atiraram-te para cima combustível de ódio voraz. Ardeste e eu lamento-te. Absorveste o fumo das coisas sagradas. Da vida que dentro se fez e nunca mais. Restam em ti as marcas negras como pétalas de uma flor de morte que cairão à chuva inevitável. E novos refúgios se erguerão. Aguardando.



Ao Cavalo como a outro animal qualquer ou quaisquer.

Em teu cansaço sofegante sôfrego e sonoro eu ouço a vida a trote. Quanta alegria em correr livre. Lado a lado com outros. És lindo cavalo. Porém vejo nos teus olhos esse outro que te observa dentro da cerca sem entender. Sem se entender. Sem te soltar no olhar essa corda. Sem soltar tantas vezes no meu próprio olhar a corda que nos une. Nos oprime.


25.11.03


ao Segredos de Deméter:

Segredos que nos unem.

Segredos. Sempre segredos guardados que se libertam ao vento por uma brecha da distração. Ou do desejo. Que são esse vento liberto. Sussurrante. Que leva a quem sabe escutar a melodia dos dias. Das tempestades e da calmaria. No equilíbrio. De barcos encontrados em mundos novos. De marinheiros encontrados no desconhecido. Desencontrados. Na aportagem. De gentes que os receberam com o peito aberto ao fogo. De um encontro sofrido de séculos de desencontro. De vida nascendo na mistura dos sangues. Enamoramento ou brutalidade. Beleza. Das línguas e dos territórios por elas falados. De um nevoeiro mágico que une mesmo sem deixar tudo ver. De um nevoeiro que não apaga o mal. Mas projecta um futuro comum. De adivinhação. De achamento. De todos nós.


O homem do olhar vazio VII

O homem vai dormir. Deixa-se dormir. Não tem forças por isso não vai dormir. Não faz nada. Não tem acção. Deixa-se dormir. Fica onde está num canto de rua ou de sala. Onde preferirem imaginá-lo. Encolher-se é o seu último esforço porque tem frio. Mas um frio profundo. Ósseo.


A propósito de Parede VI, escreve HMBF (permito-me publicar; obrigado):

Lá está. Continuo sem entender por quê. É a idade, a velhice, a proximidade da morte, a resistência, a degradação, o tempo a passar pelo tijolo como se o tijolo fosse carne. A parede, o nosso corpo? Não sei. Mas que é belo, ai isso é.
hmbf


Parede VIII
Olho-te as cores que antes não podia ver. Cresci alguma coisa mas fiquei muito mais velho. O tempo não perdoa. É um facto. Depois de tanto sol a pele mostra rugas. Mostra tanta coisa escondida. Como tu. Vejo agora sob a tinta descarnada ou o cimento quebrado os tijolos que te fizeram ao longo do tempo. Que terás guardado tu este tempo todo.


24.11.03


Parede VII
Vejo em ti marcas de mãos. Talvez pedindo socorro. Talvez batendo de raiva. Ou apenas descansando os dias.


23.11.03




um gato espreita-nos com admiração redobrada. que animais estranhos somos. ele sabe que é preciso cuidado.



Parede VI



sim. não é possível regressar. porque aquele que chega não é o mesmo. a mesma. nem os que ficaram. há objectos fora de sítio. músicas que se ouviram entretanto. livros que se leram. palavras que mudaram sentimentos. consciência. para mim choveu. para ti fez sol. ou o contrário. que interessa. nada. mas estivemos separados e isso alterou-nos. porém se partirmos do pressuposto que chegámos agora também partimos de um entendimento que é inabalável. temos coisas novas para contar um ao outro. começo por te dizer beijo. um beijo porque chegaste. bem vinda porque vens diferente. não é melhor. é diferente.

comentário no Lugar da Incerteza (blogue que gosto) ao post:

Não é do regresso o verbo conjugado.
Afastei-me um dia, dois, três, porque outros caminhos surgiram que os meus pés quiseram, depois, porque um problema no computador, depois, porque o cansaço. Agora, o sentir que tudo isto desconheço.
Não há regressos possíveis. Possível é apenas chegar. Esse é o verbo.

- posted by R.


Parede V
Pessoas passaram por ti em sorrisos. Em lágrimas. És memória.


22.11.03


Parede IV
Parede. Traço dos dias. Das horas de espera.



Parede III


Sono. Sonho. Só.


20.11.03


Elas trazem charme para cá. Trazem perfume. T&L.


19.11.03

18.11.03


Agradecimento ao Extravaganza por considerar Parede a imagem da semana.


A palavra a quem sabe.

A Música das Cores
(ao Ângelo)

A pintura; às vezes, sabe ser
uma forma de música: sugere,
no fluxo imparável do acontecer,
que a vida pode não acabar. Fere
o centro de nós mesmos. Amacia
e dissolve tensões que a vida impura,
em tantos momentos, cega, nos cria.
Como a música, é boa a pintura.

Eugénio Lisboa, Matéria Intensa, Lisboa, Instituto Camões, 1999


A palavra a quem sabe.

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia


A palavra a quem sabe.

Sobre o Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
-- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

-- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

-- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Hélder


Prenda da Louise. Obrigado mesmo. Lindo.

2horas de beijos foram enviados a um blog! (mais um caso de polícia?)

alguns eram beijos soltos e na cidade aguardando pela noite, eles foram caindo
uns esborracharam-se nas paredes, na terra.
uns envolveram casais apaixonados em ligações magnéticas.
uns fizeram correr almas traídas atraídas pelas suas cores

outros distrairam por breves instantes o olhar vazio de um homem que estava a fumar à janela.

um deles vinha endereçado dizia a vermelho de sangue : para ti WT
Louise


17.11.03


Também da Louise, a propósito do Homem do olhar vazio IV:

Um caso de polícia

Esteve 2 horas no meio da multidão.
havia uma manisfestação de rua e sem querer foi apanhado, embrulhado por ela.

todo a comunicação social apareceu.

e hoje, ! em todos os jormais, rádios e televisões a notícia não versa a tal manisfestação. é que, no meio da multidão apareceu "algo" estranho.

tem a forma de um ser humano, mas é totalmente transparente....nas imagens consegue-se ver um coração a bater desordenadamente, acompanhado de movimentos bruscos de algo que deve ser uma mão em direcção ao que deve ser uma boca.
no meio da transparência encontram-se dois buracos negros, devem ser os olhos...talvez

imagens impressionantes......

um caso de polícia


um agradecimento a todos os que aqui vêm e fazem companhia a estas palavras. a esta escrita solta. abraço.


Oferta da Louise, a propósito do Homem do olhar vazio V:

telefonema

telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.

foi então que deu pelo facto.

realmente tinha morrido havia já dezassete dias.

Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.

Novos contos do Gin Tónico - Mário-Henrique Leiria


O homem do olhar vazio VI

Pensa em escrever tudo aquilo que em turbulência lhe arrebata o espírito. Em partilhar esse mar fantástico de ondas tão altas que atingem a noite no céu. E tranquilas passeiam barcos no dia junto ao chão. Oscilações de amor e ódio. O cheiro da terra coberto do pó das estrelas. Tudo no interior dessa aparente distância. Infinitude. Afinal tudo num único ponto atómico do pensamento. Feito corpo. Feito carne.
........................................................Devia ter juízo este jovem em vez de passear dentro de si tais confusões. A irredutibilidade da vida que acaba em morte. O poder do que é. Já antes era e será. Não há interrogações destas que transportem futuro.
........................................................Não concordo consigo se não vir nisso um qualquer transtorno. O rapaz procura a essência reveladora da vida que é a sua. Nunca a de todos os outros. Talvez não a encontre nunca. Talvez seja a pergunta o seu destino. A pergunta.
........................................................Não encontrará nada a não ser a perdição. Está tudo descoberto entre os seres e as relações estabelecidas. É um mundo velho. Repetido. Que interessa a angústia de querer saber quem somos ou devemos ser e ainda como se isso não bastasse o que são as coisas em torno.
........................................................Como é belo perdermo-nos na batalha incansável de perceber tacteando cada segundo quem somos. Sofrer essa imensidão das coisas e dos outros. Desconhecido.
........................................................Trabalhar. O que ele devia fazer é alguma coisa de útil em vez de andar perdido nessa poesia da inutilidade.


15.11.03


O homem do olhar vazio V

O pensamento urge-lhe nas veias perigoso por entre os interstícios se difunde. Entre as células venenoso se agiganta. Cresce. Ferindo-se de sangue num dedo bebe-o. Sabe-lhe bem compreendendo o local onde há tanto tempo se perdeu. Se fugiu. Contacta em seu redor a vida. O quê. O que fazer. Para quê. É preciso acelerar a normalidade das ideias. Fixar apenas o indispensável. Viver ao que dizem.


14.11.03


O homem do olhar vazio IV

Consegue estar duas horas parado de pé a olhar o nada em tudo o que tem na sua frente. A ansiedade fá-lo roer as unhas febrilmente. Imobiliza-o. Concentra toda a sua energia naquele gesto repetido constante. Pensa no que devia estar a fazer. Pensa inconscientemente. Alheio.


12.11.03


Louise escreveu:

aninhada na cama, vou adormecer esta vida em reboliço

não quero mais estes olhos esbugalhados

Wilson T escreveu:

dormir em cadeirinha em posição fetal. como gémeos que não somos. porém muito próximos como se tivessemos nascido juntos ainda que amanhã. aninhados numa cama barriga. grávida de mundos. de entendimentos silenciosos. de sons quentes. um lençol é imprescindível para garantir que estamos sós. que somos um só. descobertos somos também dos outros. da boca de cena. é por detrás do pano que somos. que acalmamos as horas passadas e tornamos o tempo uma âncora no céu.

Louise voltou a escrever:

O lençol é branco porque neva lá fora. Não quero estar na arena do circo exposta mas no caso de desamparada ficar, quero estar protegida pela cor que me liga ao exterior. É a idade que me faz pensar estas coisas. Por isso também tenho cabelos brancos. Fumamos demais e metidos dentro um do outro, com os pulmões a arder, mesmo grávida de nós não consigo evitar esta tosse profunda que vai abrindo frinchas nas minhas costelas.
Depois vou serenando e as olheiras como na banda desenhada passaram de cinzento a cor da pele. é o tempo quente.


Outras formas, outras letras IV

há um inacreditável mar
cheio de caravelas
............................................por navegar
há uma dor contida
nos inabitados espaços
............................................da vida
há em tuas mãos um porto
em que me descanso
............................................absorto
há um beijo que espera
sede do reencontro
............................................primavera
há um esquecer que é lembrar
bruma de onde te olho
............................................meu mar


Alma efémera...

Tic tac tic tac tic tac. Um segundo de intervalo entre cada tic tac. Cinco segundos. 5. Podia ser outra qualquer quantidade de tempo. Se calhar até contei mal. Tanto faz. Nada faz. Tanto faz. Se desfaz. Se refaz. O tempo é uma roda livre que ninguém conduz. Descarrilar da consciência. Morte celular. É um manto de noite que veste a alma. Quando ela se encontra nua em posição fetal. Toda nua dos sentidos. Ou sentido algum. Anestesia a conta gotas no mar da incerteza. Nascer do sol pelo entardecer. Luar pela manhã. Contradições à frente de contradições atrás de certezas efémeras atrás de dúvidas perenes. Correm entre os dedos divinos ou astros celestes todas as coisas todas as almas. É urgente a pressa de sorver em todo o vagar. São os segundos que temos. A alma é o tic. O nada é já o tac. Tic tac. Tic tac. Tic tac.


Pablo pintor de turbulências

Pablo tinha acabado de acordar. Saiu à varanda como em todas as manhãs tardias. Olhou a aparente repetição das imagens que se sucediam. A paisagem. O vento contra todas as coisas. As folhas daquele Outono contra tudo pintando de castanhos e amarelos e vermelhos o cinzento do dia. O frio suave contra o seu corpo hesitante entre o dia e a noite numa velha eterna batalha. Vencido acordava a pouco e pouco. Nunca de mais. Nunca acordava totalmente. Não para o mundo dos outros. Procurava o seu próprio mundo. As cores entre as cores. Os sons entre os sons. Os cheiros entre os cheiros. As palavras novas. O todo entre o todo. A margem entre as margens. A fronteira da realidade imposta. Decidia-se pela partilha desse encontro. À espera de alguém que o percebesse. Alguém que podia nunca chegar. Pintava novas cores. Palavras. Cheiros. Sons. Pintava uma corrente rivalidade com os lados desse lugar nenhum. Num turbilhão propositado contra o determinismo da margem. Pablo disse que a vida de um artista se passa sempre no Outono. A obra abandona o criador. Sempre. Como as cores do verão que se despedem num cumprimento à chegada do Inverno. O Outono fica algures aí. Entre o calor e o frio. Entre o dia e a noite. Entre a vida e a morte. Num mundo próprio.



O homem do olhar vazio III

Pergunta-se pelo mundo aquele mundo que imaginava como uma criança talvez. Pergunta-se mas estupidamente não se sabe responder. Onde estará ele próprio nesse mundo. Que sentido. Lugar. O mapa mental da humanidade perdeu-o se alguma vez o teve. Geografia variável talvez. Lugares. A paisagem poderá mudar mas os lugares não podem ser assim abandonados. As referências. As pessoas. As palavras. Os cheiros. Cores. Todos os significados por detrás dos significados. É provável que se tenha perdido num turbilhão do tempo. Não se encontra. Facto.

......................................................A vida é o que é.
......................................................Compreendo. Mas o Homem é uma água revolta que não tem de obedecer ao destino do mar. Pode correr para a nascente. Pode desnascer. Recriar-se.
......................................................Não acredito em pretensões dessa natureza. O destino é uma canção negra sem harmonia. A fome que dá de comer. Esse é mais um idiota que arma na poesia um tiro na barriga. Vence não quem canta mas quem assiste jantando.
......................................................A fome só pode dar fome. Veja o olhar do homem. Cuidado. Do vazio surge por vezes o encontro cara a cara com o medo. Essa ancestral energia. Procura.
......................................................Não dá em nada na irreversibilidade da história. O homem é um número. Apenas. Devia estar fechado. Interroga-se.É perigoso.

É preciso sair para a rua. Aquela rua de palavras sãs. Humanidade. Uma rua de gestos largos num abraço aos outros. À vida que são olhos de criança interrogando. Haverá sol lá fora ou lua ou mesmo um céu carregado de chuva por cair. Uma noite que arrasta uma nova manhã. Despertando.


10.11.03


O homem de olhar vazio II

O homem fuma fuma fuma. Fuma ainda mais. Fuma. Aquela nicotina que lhe sabe tanto melhor quanto mais perdido está dentro de si. As coisas voltam a fazer sentido. Uma coerência qualquer. Tudo ganha uma nova pontuação. Novos parágrafos. Novas palavras. Num movimento repentino da cabeça repara que há um candeeiro aceso ao fundo da sala. Aproxima-se do sofá e pega num livro. Senta-se e lê. Lê. Afinal há ordem e vale até a pena viver quanto mais não seja para poder ler um bom livro. E lembra-se de uma boa bebida porque não. E mais um cigarro. Mais um.
..................................................O gajo continua na mesma não vêem.
..................................................Nada disso. Não. Não vê que o homem faz a sua procura normal o que pode muito bem ser por aí nos livros no vinho no cigarro. Depois virá o resto. O reencontro.
..................................................O reencontro com o cigarro o vinho os livros. Sempre dentro de si. Sempre longe de todos. Do real.
..................................................Nada disso não. Não vê. O homem precisa de desexistir para voltar. Normal. Tudo como qualquer um de nós se existirmos de mais. Talvez ele tenha sobrexistido. Talvez.


7.11.03


Segredo na boca

dar-te num segredo o arrepio que me vem da tua pele. a explosão da alma. o turbilhão de força no teu encontro. certeza de que ali o tempo pode parar. e podemos ficar unidos pelas nossas bocas. nossos corpos. fazendo silêncio.

comentário no blog Thelma&Louise sobre o post: "Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido" (Jean Rostand)


6.11.03


Um lugar

um lugar é onde estás ao fim da tarde quando chego cansado do dia. mas com vontade de aprender o fim de tarde. a noite. de aprender o teu perfume. a tua voz. a tua pele. uma nova manhã. mesmo que afinal estejas lá sem corpo. um lugar é a memória essa caixa mágica onde nos fica um mundo inteiro. onde nos ficam os outros. onde nos ficamos nos outros. é tudo aquilo que temos quando estamos sós a boiar no mar bem longe da praia. é o mar todo de almofada. mas há também essa penumbra do lugar. de qualquer lugar. o desconhecido. o medo. mas que seria de nós se tudo soubessemos.

comentário no blog Thelma&Louise sobre o post Lugares: "Um lugar é menos o que se encontra e mais o que se relembra."


4.11.03


Da Louise. A propósito do texto Ansiedades:

...nenhuma palavra foi diferente de ontem...
sigo a minha rotina.
...e como um "click" , o estado de ansiedade saiu pela porta.
Dou atenção q. b. a esse estado de alma sempre que me visita.
..um dia até lhe vou preparar uma recepção especial!
com o tempo...devagarinho.
Louise

(muito obrigado Louise)


Outras formas, outras letras III

é em ti
homem profundo
que reside o futuro
outro futuro
despertá-lo
em teu sangue
nova fúria
teu destino
ou nenhum



O homem de olhar vazio

Há um homem no escuro que não se sabe para onde olha. Estará voltado exclusivamente para dentro. Ou tão para fora. Parece mesmo que o seu olhar é vazio. Vazio daquilo que conseguimos entender. Será esse vazio aparente apenas uma distância gigantesca entre o que sente e tudo à sua volta. O abismo. Aprendeu a parecer interessado pela vida. Veste formal. Os outros não têm de perceber o que se passa dentro do seu espaço. Da sua cabeça. Do seu mundo. Como normalmente o fazem pelo aspecto não há problema. O seu aspecto é limpo. Arranjado. Bom. Assim deixa todos mais descansados. No máximo poderão dizer que é um distraído. Um intelectual perdido em ideias profundas. Ou com azar que é um maluco. Doente. Tarado mesmo.
..............................................Então não vêem o seu olhar doentio. Sempre fixo no outro lado das pessoas como se lhes atravessasse as almas e os corpos.
..............................................Sabe-se lá do que esta gente é capaz. Isto há de tudo por aí.
E os seus olhos continuarão perdidos e ele desligado da vida dos outros do ar que respira. Como que perdido entre a marcha dos ponteiros de um qualquer relógio. Uma quantidade de tempo que esvazia a janela para onde olha. Tudo se distancia no horizonte. Se desfoca.
..............................................Alguém olha dentro desses olhos ou não. Alguém fala a esse homem do mar. Do sol.
..............................................Ou então dêem-lhe um cigarro. Talvez se agarre aos dias pela inspiração do fumo. Da nicotina que acalma. Extasia. Dizem que mata mas não é má companhia.


3.11.03


Ansiedades

Estou perdido na escuridão. Já roí as unhas todas. Já fumei. Nem a luz do fósforo me deixou ver a porta. Janela também não. Não sei que fazer nem para onde andar nem onde sentar nem onde estar. Sinto que este escuro vazio me invade e não consigo respirar. Não consigo ver. É isso. Não consigo ver nada onde possa descansar minha alma incontrolavelmente confusa. Ansiedade. Talvez seja isso. Talvez a necessidade de fumar mais um cigarro e deixar o sangue levar a nicotina ao sítio. Levar a cabeça ao sítio. Adormecê-la. Fazer-lhe companhia em cada inspirar. O fumo que acaricia esse nervoso miudinho. Essa angústia sem noção. Sem perceber. O fumo que me entende. Que me acalma. Será tudo isto uma luta com o tempo que passa. Um sentido biológico inconsciente do andamento apressado do relógio. A ausência seja lá do que for. Ausências várias. Não sei. Afinal será o quê esta agonia. Apenas a falta de um cigarro. Se não era passa a ser. É bom enquanto há cigarros.


1.11.03

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