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12:28
by WILSON T
Há mosquitos rodeando a minha cabeça como se fossem enviados do inferno. Estão carregados de malária e isso não é bom. Estão ávidos de sangue e isso não é bom. Não é bom. Há lágrimas de suor de um corpo sovado neste dia quente que me escorrem pela costas pelas pernas pelo rosto. Há suor por todo o lado e tudo se cola. E isso não é bom. Não é bom. Sinto-me estoirado quase não conseguindo abrir os olhos para ler nem fechá-los para dormir. Mas sinto-me bem nesta sujidade que me lembra que trabalhei. Hoje trabalhei mais do que era obrigado e o sol brilhou baixo e quente. Muito quente me desfez mas destruiu a ideia da inutilidade. Me construiu de novo. Me deu vontade de tomar banho. De ler como recompensa. De agradecer a vida.
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14:10
by WILSON T
Outras formas, outras letras II
há aqueles que existem
somente pela sorte da dor
dum corpo história
escrito a sulcos profundos
de esquecimento
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17:13
by WILSON T
Luz Negra
A luz negra não cega. Não. A luz negra é a ausência das cores fúteis. A escuridão individual para permitir receber o outro. A coisa circundante. Fechar os olhos. Lutar por perceber o ponto de luz essencial ao fundo. A fonte de precisão criativa. O caminho. Um. Muitos num. Mas nunca todos. Não. A luz que permite a selecção de tons e tonalidades é a escura. A noite antes do dia.
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15:35
by WILSON T
Outras formas, outras letras II
gostava que árvores
me dessem versos
todas as coisas em segredo
o segredo de todas as coisas
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10:29
by WILSON T
Beijo.
Beijo. Beijos. Beijoooo. Beiiiiiiiiijo. Beeeeeeeeeijo. Beijos. Boca. Bocaaaaaaaaaaaaaa. Booooooooooca. Bom. Bommmmmmmm.
Os lábios mexem-se devagar ou depressa. E mais coisas que agora não interessa.
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05:54
by WILSON T
Um rosto de traços ténues. Onde mora a geometria confusa de todas elas. De todos eles. Não. Não amei muitas pessoas. Mas julguei amar. Ou procurei. Vai tudo dar ao mesmo na rampa do tempo. Que saberei eu amanhã de mim. Nada. Estarei perdido como sempre numa geometria confusa da vida. Da memória de um passado qualquer que nunca foi bem assim. Nunca.
permito-me afixar aqui o meu comentário no Escrita Ibérica ao post Curtas - 18(vale mesmo a pena ir lá.)
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13:42
by WILSON T
Na minha parede.
Na minha parede há um desenho. Uma pintura. Um buraco de fechadura por onde espreito a saudade. Da pele do corpo da alma. Da coisa toda que é fusão. Da coisa toda. Da pele a temperaturas diferentes. Do suor que é mar. Que se faz a navegar. A mar. Na minha parede há uma gravura. Recipiente de perfume. Tua substância na ausência.
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05:40
by WILSON T
Exercício proposto pelo Luís Ene:
As mais belas palavras (100)
Gosto das palavras redondas mas não gordas. De preferência grávidas. De vida. De sonho. De manhã. De água corrente que rebenta sobre a pedra em cascatas e ribeiros e rios e mares. De vento e ar fresco. De chuva molhando a terra toda. O deserto florescendo. Grávidas de uma lareira antiga onde o fogo primordial continua a espantar-nos. A aquecer-nos do desconhecido. Do escuro. Do medo. Do frio. Loucas como ninguém alegres ou tristes mas fortes. Simples. As palavras mais belas são janelas. Palavras despidas de letras. Nuas. Aquelas por escrever. Palavras que adoptadas são filhas. Palavras grávidas de palavras.
As mais belas palavras (50)
Gosto das palavras redondas não gordas. De preferência grávidas de chuva molhando a terra toda. O deserto florescendo. Grávidas de lareira antiga onde o fogo primordial continua a aquecer-nos do desconhecido. Do frio. As mais belas são janelas. Despidas de letras. Por escrever. Palavras adoptadas filhas. Palavras grávidas de palavras.
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13:24
by WILSON T
O teu pé.
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13:11
by WILSON T
da Leitora um texto que tenho de partilhar. obrigado Leitora.
(comentário ao post As mais belas palavras...)
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa.
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12:26
by WILSON T
Palavras
Tantas vezes as palavras não valem nada. Tantas vezes os silêncios não valem nada. Tantas vezes não entendemos e não somos entendidos. Tantas vezes mais valia estarmos calados de silêncios e de palavras e de tudo o resto. Porque. Sei lá porque. Não entendo sequer porque. Sei lá porque. Porque não entendemos nada. E a culpa deve ser nossa. Mas porque. Mas porque raio é que eu estou a falar no plural. Por vaidade. Por estupidez. Por mania do exagero. De querer ser mais alguma coisa. Eu às vezes penso que não entendo mesmo nada de palavra nenhuma. De palavras nenhumas. De silêncios nenhuns. De porcaria nenhuma.
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07:48
by WILSON T
Combóio
O combóio é uma frase inteirinha cheia de carruagens que desconhecemos com tanta gente e tantas coisas diferentes. Cheia de velocidade. Ou mesmo parada. Num silêncio escuro. Tenebroso quando não sabemos onde estamos. Ou ainda vendo pela janela luz. Uma luz que parece ser boa. Reveladora. Instrutiva. Universal. Que nos deixa ver paisagens. Mesmo quando é ténue julgamos. E julgamos saber. E julgamos saber alguma coisa. Mas quantas vezes não vêmos é nada senão impressões difusas separadas por obstáculos indecifráveis na rapidez da individualidade. Na urgência das palavras pelas palavras. Ou não. Ou simplesmente porque não sabemos nada. Ou porque não percebemos como percebem os outros. Ou nós. Ou os outros. Que importância isso tem. Ou não. O problema é que as palavras são combóios em que viajamos. O problema é que vamos lá dentro. Às vezes não sabemos para onde vamos. Às vezes vamos. Às vezes não devemos ir a lado nenhum. Enfim. Que sei eu sobre isso.
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07:45
by WILSON T
Réstea de Luz
Uma réstea de luz rasgou o meu olhar adormecido no escuro. Senti uma raiva imensa por acordar. Queria inexistir. Estar naquela inconsciência calma ou pelo menos ignorante do sono. Ignorância da luz. Sonho. As imagens que corriam eram pelo menos melhores do que o dia fora da minha cabeça. Acendi de repente um cigarro que me deixasse um pouco dormente. A sensação de que a vida é boa. E lá fora há manhã.
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13:30
by WILSON T
As mais belas palavras...
Hoje não podem sair. Amanhã.
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11:41
by WILSON T
Gavetas
Felizmente gavetas abertas ou que podemos sempre abrir. Às vezes descaradamente. Outras de mansinho. Donde saem perfumes. Cheiros. Ou cheiros de coisas sem cheiro. História. Estórias. Lembranças. Memórias. Saudades. Talvez saudades do futuro. De saber mais. De saber dos outros. De onde vimos. Para onde vamos. Cartas antigas de quem já não está cá. Cartas de escritores a escritores. Ou apenas de namorados a namoradas e namoradas a eles. Pedaços de livros amarelados pela idade e sabedoria. A sabedoria que resiste ao tempo. Com ar de velha mas sempre nova. Recados de alguém que escreveu para nós sem o saber. Desenhos e pinturas. Fotografias. De preferência a preto e branco que têm sempre um ar mais sólido e mais verdadeiro. Não sei bem. Coisas novas e frescas também. Coisas diferentes. Maneiras. Maneiras de pensar. De estar. Também coisas repugnantes. Difíceis de engolir. Arrogâncias vadias. Vaidades pretensiosas. Por querer. Por crer. Sem querer. Sem crer. Mas sempre irresistíveis. Sempre resposta à nossa curiosidade. Sempre uma partilha. É assim a vida quando espreitamos para dentro de uma gaveta.
E um blogue é uma gaveta.
Comentário ao post "Blog" de Luís Ene, no Ene Coisas
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11:53
by WILSON T
Outras formas, outras letras I
Cor de Mar (à mana Marisa)
soam na arriba da minha alma
rocha íngreme
sons doces e ternos
um cantar de violino
quanto mais distante mais fino
e apurado
num constante rebentar
tua saudade
cor de mar
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05:07
by WILSON T
Números
Quantas pessoas-número há por aí em toda a parte. Quantas estatísticas. Quantos números. Vivemos os dias nesta obscura defesa dos números. Protegemo-nos deles. Fugimos. A única maneira possível. Será. Ler e conjugar diversos dados estatísticos torna-se assustador. Brutalmente opressivo. Depressivo. Estarão correctos os números. As estatísticas. Parece até que não há gente que chegue para tanta desgraça. Tantos são escravos modernos. Tantos sem emprego. Tantos sem casa. Tantos com fome. Tantos com sida. Tantos com malária. Tantos com tantas doenças. Tantos morrem em tantos segundos em tantos minutos. Cada segundo que cai na ampulheta da vida despedaca-se em mil desgracas. Será possível. Estarão errados os números. Ou tantos têm de tudo isso. E outros nada. Uma minoria. Será. Como é possível que os números estejam correctos e nós. E nós. Em cada segundo.
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12:42
by WILSON T
Enviado pela Leitora. Permito-me publicar. Partilhar. Obrigado leitora.
Amanhece.
Pelas festas da vida
A luz
Reluz.
Vai começar o dia dos sentidos,
da razão
E do medo
Sensações,
Lucidez
E uma pedra de angústia no meu peito.
Mas é ressuscitar
É renascer
É de novo levantar a tampa do caixão
E ser de novo adão
Com a maça ainda por comer.
Miguel Torga
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15:15
by WILSON T
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner
Como prenda as pessoas. Simples. Como as palavras simples. As palavras que nos fazem acreditar que vivemos. Mesmo fora de nos. Voando nesse vazio. Onde tudo cabe. Onde tudo pode estar ligado. Perto.
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11:51
by WILSON T
Gesto. E fulano nasceu. Agora e viver. Palavra viver. Como alguem me disse. Mundo.
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09:04
by WILSON T
Palavra gesto. Palavra contemplacao. Palavra prazer. Palavra tudo. Palavra.
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13:53
by WILSON T
Mae.
Nasco daqui a dias numa tentativa de te agradar de novo. A ti e ao pai. A tantas pessoas. Sim porque eu sei que te agradei naquela primeira vez. Sei pelo que me deste entretanto em tantas horas em tantas palavras e gestos. Em tantos silencios. E e assim em palavras simples que te digo essa inexplicavel coisa que e a felicidade em vossa presenca. Sem mais nem menos. Sem medo das palavras doces. Do exagero. Voces sao eu e eu nao sou mais do que voces e o mundo que depois fui guardando. Recolhendo no olhar que puseram no meu rosto. Na mao que tantas vezes conduziram. E esse amor e simples. Respiro-o. Poderia dizer amo-vos mae. E assim chamar mae a quem me fez. Fez. Fazer. Palavra bonita. Fizeram-me. O que isto me diz. Porque essa palavra mae e o que sinto por ti e pelo pai. Pelos irmaos. Sangue. Corpo. Alma. Essa palavra magica e simples que para mim quer dizer inicio. Quer dizer tudo. Tudo.
Um beijo profundo.
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05:09
by WILSON T
Voar I
Olhamos pela janela e deixamo-nos ir naquela imensa luz branca azul. Abrimos sobre as nuvens as asas do que vemos numa infinita imaginação recordação. As asas do que vemos. Tudo o que é possível. Impossível. Ah e respiramos esse ar fresco que dentro de nós faz pulsar. Atiramo-nos pela janela num voo intemporal e em fragmentos. Em segundos. Há um vento frio que soprando os nossos cabelos nos eterniza jovens. Em fragmentos que parecendo lógicos e felizes e consistentes fazem uma bola de sabão. São o vidro entre a vida e um outro lado de que fugimos. Em segundos.
Quanta vida cabe num piscar de olhos. Quantas imagens novas. Quantos sóis renovados. Inventados. E sempre um horizonte para onde vamos. Para onde voamos. Mesmo que no interior mais ínfimo de nós. Mesmo que em espiral tudo se deprima num átomo. Num ponto final. Dormente. Para que afinal tudo volte a explodir no tal azul. A vida num ciclo desesperado de permanência. Luta sobrevivente. Preservação de espécie. Loucura talvez. Uma coisa animal.
Somos como pássaros que voam sempre. Para sempre. Nem que apenas no mais ínfimo olhar-êxtase que depositámos sobre as coisas. No prazer que tivemos em voar. A vida. Rasantes.
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11:51
by WILSON T
De regresso.
Mas com vagar e de vagar. Aqui a net não é amiga ou não quer permitir o vício. Vamos ver. Já sei. Escrevo os textos em casa e aqui é só meter.