Escrita Solta

24.9.03



Espera

Há um compasso de espera obrigatório. Nuvens por cima. Nuvens por baixo. Azuis. Muitos azuis. Voltarei aqui para vos dizer que não me esqueço. Que vos lembro. Que vos aguardo. Sempre. Escrita solta. Até daqui a umas noites.


22.9.03


Noite I


18.9.03


Cor I



Nas paredes dessas ruas por aí e por aqui também há cores múltiplas que não vemos. Não vemos por causa de luz a mais. Uma luz demasiado interior. Ofuscante. Há cores que não sabemos da ausência até ao branco. Há céus azuis de muitas cores nos olhos de todos. Há céus onde esvoaçam aves do paraíso. Mesmo que adiado.


Prendapalavra ao Gato Legível como incentivopedido de mais escrita:

O homem em eclipse

Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se
a data digam a data
a datazinha faz favor
qual data foi por decreto
que a gente se eclipsou
foi só manobra espertice
um dois três e pronto é noite
que nem a lua apareça
seja de que lado for
Uns seguraram-se logo
eram espertos bem se viu
outros cairam ao mar
com cabeça pernas e tudo
quanto a mim perdi a calma
fiquei desaparafusado
tradição cultura estilo
certeza amigos fatiota
tudo fora do seu sítio
um desaparafuso terrível


Segurem-me camaradas
sinto pernas a boiar
cheiro fantasmas enxofre
estou aqui mas posso voar
o parafuso da língua
vai partido vai saltar
agarrem-me! agarra!
pronto
pari o mais leve que o ar



Mário Cesariny de Vasconcelos
nobilíssima visão
Colecção Poesia e Verdade
Guimarães & C.ª Editores
1976


17.9.03



No teu rosto

no teu rosto vejo um horizonte de luz mesmo quando anoitece. uma alegria interior talvez egoísta mas imensa e inabalável. és linda. e estás aqui. és também minha inevitavelmente mesmo sem querer ser teu dono. nasceste de mim no encontro com alguém. alguém que amei. que amo. porque esse amor és tu e portanto eterno. uma rocha onde tenho ancorados alguns sonhos. tu feliz. apenas isso e é já tanto. por agora vou ajeitando o teu cabelo e aproveito para descer a mão pelo teu rosto numa carícia mágica que aprisiona dentro de mim a eternidade. uma sensação estranha de pele. de alma. sorri a vida por favor. não sentes na minha mão quanto te amo?

(texto oferecido a Luís Ene, escrito directamente nos comentários do seu blog)


13.9.03




Janela

Estava à janela como sempre fazia aos sábados de manhã religiosamente como um vício maldito. Olhava para tudo e para nada e roía as unhas desalmadamente. Centrava-se de vez em quando nos movimentos graciosos de algumas raparigas que por ali passavam e não se sabiam observadas. Assim eram bem mais bonitas. Inconscientes dos seus olhares. Inadvertidas. Incautas. Soltas. Perdia-se em pensamentos poéticos sobre a paisagem onde vingava um jardim cheio de rosas vermelhas. Pensava no amor. Nos rostos do seu amor. Nos corpos dos rostos. Nos corpos. Respirava fundo aquele ar todo que lhe entrava pela janela entreaberta e através da cortina que o ofuscava cautelosamente. Perfume. Como uma droga que entra fundo nos pulmões e se espalha no sangue e vai a todo o corpo. Fumava. Muito. Assim acalmava a tensão provocada por tanta beleza lá em baixo. Na rua. Essa rua onde à noite se escondia por detrás de sombras. Onde se preparava para atacar. Para tomar com paixão e violência um banho de noite. Para gritar. Libertar-se daquela solidão olhando o céu. Infinito.


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