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22:16
by WILSON T
Loucura
As sombras iguais na luz ténue. De um branco sujo. De retiro. Eufemismo para uma morte lenta. Ou vida ausente. Longe. As sombras iguais quebradas na separação entre chão e parede. Sempre perto da parede. Arrasadas. Frequentemente partidas em três. Pelos cantos. Escondidas. As mãos na cabeça arrancam cabelos. Segundos a uma vida sem tempo. Sofrimento. Sabe-se lá que pensam aquelas sombras. Sabe-se lá de que luz fogem. Mas fogem. Ali há uma batalha infinita entre o dia e a noite. No sossego do mistério individual. Impenetrável. Todo o ódio num sorriso sem dono. A liberdade numa cabeçada violenta. Antítese. A paz segura de uma camisa de forças. As mãos amarradas inofensivas. E os olhos na parede. Que ninguém diga que lá fora a luz é sempre boa. Que não há perigo. Que vale a pena. Sabe-se lá o que pensam aquelas sombras. Que escolha fizeram. Renúncia. Os perigos são infinitos passos do percurso. Nem todos estão para isso. Não é fácil. Não é. Lá fora não há menos doidos. Não há. Há violência em aparentes carícias. Há quem consiga passar distraído. Será isso. Será?
(25 de Fevereiro de 2002)
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22:10
by WILSON T
O nascer do sol
Contento-me com uma vela. As formas evidenciam-se ganhando contornos firmes fixos. A vela não mexe. Não ilude. Não distrai. As sombras estão ali não precisando correr atrás delas. Vejo-as bem. Sinto-as. Percebo-as. O tempo conto-o em batimentos cardíacos. Respiração. Toque. Pele. A vela ilumina-me só a mim e consigo ver o quanto estou só. Os outros sós também. Distraídos. O Sol traz as cores da distracção. Falsa fortuna. Descanso. O Sol traz o ciclo irremediável das coisas. Vida. Morte. Traz o tempo contado em horas. Noite. Dia. A minha vela não domina. Acende quando quero. E basta um sopro. Não me ofusca a contagem do tempo. O meu tempo. Espaço. O outro torna-me igual a outros. Mostra-me pequeno. Impotente. E todos os dias para me dizer isto. Estou farto. Chega. Não preciso de me humilhar perante a sua chegada. Não tenho pena nenhuma. Nenhuma.
(26 de Janeiro de 2002)
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22:08
by WILSON T
As linhas com que te coses
Começou a desfazer-se da camisa de forças que lhe tinham vestido à força. A vida. Ou teria sido ele a escolhê-la? O branco até lhe ficava bem. Era bonito. Puro. Cheirava a manhã de nevoeiro. A terra molhada. Flores. Sangue correndo. Cheirava a Sol. A futuro. Como poderia ter escolhido outra? Era sempre assim desde o princípio dos tempos. Enrolou o seu fio de Ariadne. Só seu. Arrumou num segundo toda uma travessia. Regressou. Esbarrou com um miúdo inocente de olhos arregalados a quem pregou um susto de morte. Ele.
(15 de Agosto de 2001)
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03:41
by WILSON T
O gato que lê
Não me faças festas que não sou o teu passatempo nem o teu brinquedo anti-stress. Não me faças festas já te disse meu camelo. Não ouves. Não. Nâo vês o que estou a fazer e que o que estou a fazer é importante. Não vês nada idiota. Não. Porque tens de olhar a televisão como se estivesses viciado e agindo como uma marioneta aos impulsos do ecran. Alucinado nessa guinchadeira. Perdido nesse fingimento. Bem sinto quando a macacada pega fogo ou há sangue a correr ou há medo ou há vergonha ou tu esperas ansiosamente a próxima treta. Bem o sinto. No meu pêlo. Sim. Que tu pensas que sou o suporte dessa tua mão inútil. Sem gesto. Vazia. Não vês que estou a ler anormal. Não vês que me enervas. Desliga isso. Desliga. Tira a mão. Solta. Não imaginas o tempo que ganharias se desligasses essa coisa perturbada. Nem imaginas nada. Apenas te perdes. Inútil. Já te disse ou queres que te lance o meu olhar verde mágico e aterrador de gato. Ou arranho-te todo para acordares. Animal.
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21:48
by WILSON T
Dentro da minha alma electrónica
Enquanto.
Enquanto espero as palavras no circuito difícil mas inevitável. Partilho ciberneticamente uma das últimas fotografias que tirei. Não é o meu melhor ângulo. Contudo mostra o caminho que me conduz por aí até encontrar alguém. É o horizonte possível. É o dentro. Dentro da minha alma electrónica. É a espera. A espera. Espera.
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16:11
by WILSON T
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
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22:07
by WILSON T
Sonho: primeira palavra.