Escrita Solta

31.8.03




Loucura

As sombras iguais na luz ténue. De um branco sujo. De retiro. Eufemismo para uma morte lenta. Ou vida ausente. Longe. As sombras iguais quebradas na separação entre chão e parede. Sempre perto da parede. Arrasadas. Frequentemente partidas em três. Pelos cantos. Escondidas. As mãos na cabeça arrancam cabelos. Segundos a uma vida sem tempo. Sofrimento. Sabe-se lá que pensam aquelas sombras. Sabe-se lá de que luz fogem. Mas fogem. Ali há uma batalha infinita entre o dia e a noite. No sossego do mistério individual. Impenetrável. Todo o ódio num sorriso sem dono. A liberdade numa cabeçada violenta. Antítese. A paz segura de uma camisa de forças. As mãos amarradas inofensivas. E os olhos na parede. Que ninguém diga que lá fora a luz é sempre boa. Que não há perigo. Que vale a pena. Sabe-se lá o que pensam aquelas sombras. Que escolha fizeram. Renúncia. Os perigos são infinitos passos do percurso. Nem todos estão para isso. Não é fácil. Não é. Lá fora não há menos doidos. Não há. Há violência em aparentes carícias. Há quem consiga passar distraído. Será isso. Será?

(25 de Fevereiro de 2002)




O nascer do sol

Contento-me com uma vela. As formas evidenciam-se ganhando contornos firmes fixos. A vela não mexe. Não ilude. Não distrai. As sombras estão ali não precisando correr atrás delas. Vejo-as bem. Sinto-as. Percebo-as. O tempo conto-o em batimentos cardíacos. Respiração. Toque. Pele. A vela ilumina-me só a mim e consigo ver o quanto estou só. Os outros sós também. Distraídos. O Sol traz as cores da distracção. Falsa fortuna. Descanso. O Sol traz o ciclo irremediável das coisas. Vida. Morte. Traz o tempo contado em horas. Noite. Dia. A minha vela não domina. Acende quando quero. E basta um sopro. Não me ofusca a contagem do tempo. O meu tempo. Espaço. O outro torna-me igual a outros. Mostra-me pequeno. Impotente. E todos os dias para me dizer isto. Estou farto. Chega. Não preciso de me humilhar perante a sua chegada. Não tenho pena nenhuma. Nenhuma.

(26 de Janeiro de 2002)


As linhas com que te coses

Começou a desfazer-se da camisa de forças que lhe tinham vestido à força. A vida. Ou teria sido ele a escolhê-la? O branco até lhe ficava bem. Era bonito. Puro. Cheirava a manhã de nevoeiro. A terra molhada. Flores. Sangue correndo. Cheirava a Sol. A futuro. Como poderia ter escolhido outra? Era sempre assim desde o princípio dos tempos. Enrolou o seu fio de Ariadne. Só seu. Arrumou num segundo toda uma travessia. Regressou. Esbarrou com um miúdo inocente de olhos arregalados a quem pregou um susto de morte. Ele.

(15 de Agosto de 2001)


30.8.03




O gato que lê

Não me faças festas que não sou o teu passatempo nem o teu brinquedo anti-stress. Não me faças festas já te disse meu camelo. Não ouves. Não. Nâo vês o que estou a fazer e que o que estou a fazer é importante. Não vês nada idiota. Não. Porque tens de olhar a televisão como se estivesses viciado e agindo como uma marioneta aos impulsos do ecran. Alucinado nessa guinchadeira. Perdido nesse fingimento. Bem sinto quando a macacada pega fogo ou há sangue a correr ou há medo ou há vergonha ou tu esperas ansiosamente a próxima treta. Bem o sinto. No meu pêlo. Sim. Que tu pensas que sou o suporte dessa tua mão inútil. Sem gesto. Vazia. Não vês que estou a ler anormal. Não vês que me enervas. Desliga isso. Desliga. Tira a mão. Solta. Não imaginas o tempo que ganharias se desligasses essa coisa perturbada. Nem imaginas nada. Apenas te perdes. Inútil. Já te disse ou queres que te lance o meu olhar verde mágico e aterrador de gato. Ou arranho-te todo para acordares. Animal.


25.8.03




Dentro da minha alma electrónica

Enquanto.
Enquanto espero as palavras no circuito difícil mas inevitável. Partilho ciberneticamente uma das últimas fotografias que tirei. Não é o meu melhor ângulo. Contudo mostra o caminho que me conduz por aí até encontrar alguém. É o horizonte possível. É o dentro. Dentro da minha alma electrónica. É a espera. A espera. Espera.


21.8.03



As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade




20.8.03



Sonho: primeira palavra.


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